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Contos 
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A história de Eva Monroe
O Telefone tocou às sete horas, Ana atendeu ainda sonolenta.
- Alô, oi Tavinho o que você quer? Não, não
estou com nenhuma peça em vista. Por quê?
Como? Você tem um papel para mim? Olha aqui Tavinho, se for como
da última vez que você me convidou para ser a prima do tio
do vilão e que só apareci na última cena para servir
café em um velório e, ainda por cima toda coberta porque
era leprosa, tô fora! Mas você também me disse que
seria o papel da minha vida! Ta bom! Então, vamos combinar de se
encontrar onde? Aqui! Ta legal, às vinte horas tá bom para
você? Ok, tchau!
O dia passou rápido, Ana Amélia, ocupou-se a tarde inteira
com o jantar. Pontualmente às vinte horas, a campainha tocou...
- Já vai! Já vai!
- Oi Aninha! Feliz em me ver? Olha o que eu trouxe!
- Um abacaxi!? Poxa Tavinho, só você mesmo! Mas, é
presente ou sacanagem?
- É o seu troféu abacaxi!
- Rá, rá... Como você é engraçado Tavinho,
tinha que fazer comédia!
- Cadê seu senso de humor, menina? E cadê o jantar que você
prometeu?
- Não, primeiro vamos falar sobre o filme!
- Aninha, relaxa! O papel é seu! Vamos jantando que eu vou contando!
Hum, o cheirinho tá tão boooommm!
- Tavinho, eu te conheço não é de hoje! Fala logo
qual é o meu papel, se não, não tem jantar!
- Nossa como você tá estressada! Desse jeito não vou
poder te ajudar a ser uma estrela! Primeiro você tem que fazer o
gênero boazinha, para conquistar o público, depois você
pode se transformar em megera que ninguém vai dar a mínima!
É assim que as coisas funcionam...
- Ta bom Tavinho, qual é o tema do filme?
- A invasão dos tomates assassinos...
- Mas, do que se trata?
- Será uma obra prima da sétima arte! Maior filme de suspense-ficção
já feito! Só não sei se terei tempo de ir à
Hollywood dar aquelas intermináveis entrevistas... E todas aquelas
atrizes maravilhosas implorando por um papel em um filme meu! É
não será nada fácil...
- Então o gênero é suspense? E qual é o enredo?
- Bom, é uma ficção também. É uma pequena
cidade chamada Tomatolandia. Lá vivem Tomatinhos muito felizes
com a vida que levam. Até que um dia surge um monstro tirano chamado
Kaquitos, ele esmaga uma jovem Tomatinha que voltava da escolinha. O Rei
Tomanton resolve iniciar uma guerra contra os Kaquitos!
- E vai ter algum herói nessa história?
- Claro! A Princesa Tomalina! Ela será contra a guerra, tentará
convencer seu povo de que só o amor pode vencer o ódio!
- Nossa vai ser meu primeiro papel como heroina!
- É... Bom, você vai ter um papel tão importante quanto
esse Aninha...
- Como? Então serei a vilã que lutará contra a Princesa,
ganharei as cenas de ação?
- Na verdade você irá interpretar aquela que fez tudo isso
acontecer...
- Entendi! Serei a assassina, a sanguinária, a perversa, que mata
sem dó nem piedade! Será que saberei interpretar uma assassina?
Bom, sou uma atriz e como tal tenho que aceitar desafios!
- Você não será a assassina, mas a assassinada!
- Como assim? Eu vou ser a Tomatinha que foi assassinada no primeiro capítulo?
- No primeiro capítulo não... Na primeira cena...
- O quê? Vou interpretar uma tomatinha que morre logo na primeira
cena, sem dizer uma única palavra? Ficou louco?
- Claro que você tem uma fala! Você vai dizer: “Socorro!
Socorro!” Ana Amélia, morrer logo na primeira cena exige
muito de um artista, exige uma performance e tanto! Sua personagem será
o pivô de toda a história! No final do filme ela será
homenageada por todos os Tomates como: “Aquela que os fez ouvir
o grito de liberdade!”.
- Eu obviamente estarei vestida de tomate até o pescoço!
- Não, não só até o pescoço, até
a cabeça, é claro...
- Claro! Claro que você está louco! Claro que não
vou aceitar mais uma papel ridículo! E, é claro que você
vai sair daqui agora!
- Mas... Aninha e o jantar?
- Você quer jantar? Você é mesmo um morto de fome,
vive indo de bico a festas só para aproveitar a boca livre! Até
em velórios você vai para filar o cafezinho! Sei também
que ninguém quer fazer seus filmes! Também com toda essa
imaginação!
- Olha aqui, Ana Amélia, um dia você vai se arrepender de
não ter aceitado fazer um filme meu! Depois que eu ficar famoso,
não adianta correr atrás tentando uma pontinha não!
- Tchau Otácilio da Silva!
- Tavinho Bert! Ana vamos parar com isso! Você já fez o jantar
mesmo, então vamos aproveitá-lo...
- Que jantar que nada! Vai para fila do sopão!
Finalmente Ana conseguiu colocar o “grande cineasta” porta
a fora.
Desanimada pegou a bolsa, melhor sair que ficar amargando decepção.
Notou que havia uma ligação perdida no celular.
- Não acredito! Um dos maiores diretores de teatro do país
me ligou e não atendi!
Rapidamente retornou a ligação. Alguns tons depois...
- Alô, quem está falando? Oi Walter Flávio, aqui é
a Ana Amélia, você me ligou? Ah, errou de número.
. . Bom, mas aproveitando a oportunidade, como vão os projetos
de teatro? Você está produzindo um musical! Nossa que maravilha!
Adoro musicais! Do que fala esse musical? A vida de Marilyn Monroe! Ah
sei, e quantos personagens terá esse musical? Oito. Sete masculinos
e um feminino, que é obvio é o da própria Marilyn.
Ta legal, Walter Flávio, boa sorte em seu musical. Só liguei
por que pensei que estivesse me procurando. Eu? Não, eu não
tenho nenhum projeto em vista, nem a perder de vista! O Tavinho Bert me
convidou para atuar em seu novo filme, mas não aceitei! Não!
O papel era ótimo, iria interpretar uma heroina, mas teria que
montar a cavalo e detesto montar a cavalo! Foi isso. . . E também
não gosto muito de filmes de ação, prefiro drama,
comédia, romance, musicaaaaiiiis. . . Se tenho facilidade para
cantar? Ah, praticamente nasci cantando! Só não virei cantora
por opção! Mas. . . Por quê? No seu musical tem um
papel para mim? Olha, eu não me importo nem um pouco de interpretar
personagens masculinos, aliás, era o que mais representava nos
tempos de teatro amador! E modéstia a parte, era ótima!
Como assim? Não é para interpretar um personagem masculino?
Mas... A única personagem feminina é o da Marilyn! Você
está me convidando para interpretar a própria?! Olha, já
faz muito tempo que a gente não se vê, e você não
deve estar lembrando muito de mim! Eu engordei um pouquinho nos últimos
anos. . . Mas posso emagrecer num instante é só você
me dar um prazo. . . Os ensaios começam na próxima semana?
É assim fica difícil, não consigo emagrecer tanto
em uma semana. Mas, agradeço mesmo assim. Um grande abraço.
. . – desligou aos prantos.
- Por quê? Por que não consigo um papel decente? O que tenho
que fazer? O quê?
Em um momento de desespero Ana Amélia ajoelhou-se implorando ao
seu Santo de devoção para que ele lhe desse uma chance de
conseguir mostrar seu talento. Uma única chance e agarraria com
unhas e dentes.
- Troco tudo por uma chance! Quero ser uma atriz, famosa, amada pelo público!
Por favor, me dê essa chance!
Suplicava aos prantos. . . Até que adormeceu ali mesmo, em seu
pequeno sofá. . .
A campainha tocou insistentemente fazendo-a acordar assustada.
Quando abriu a porta, deu de cara com uma figura estranha. . . Era uma
anã com um vestido longo verde-limão, um chapéu violeta
de abas longas, uma bolsinha de oncinha e uma bengala branca. . .
- É aqui que mora a senhorita Ana Améilai? – perguntou
a baixinha com uma voz fina e fanha.
- Sou eu. . .
- Hum – resmungou olhando-a de cima a baixo – Vim atender
o seu pedido! – disse afastando-a com a bengala procurando passagem
para entrar no pequeno apartamento.
- Pedido? Que pedido?
- Esse povo é engraçado, fazem seus pedidos depois esquecem!
Vamos logo mocinha não tenho tempo a perder! O que você quer?
- Ser atriz. . .
- Dããã! Isso você já é! Aí,
acho que estou ficando velha para a profissão! Vamos diga o que
você quer!
- Mas, quem é você?
- Papai Noel! Ora, você não fez um pedido ao seu Santo de
devoção? Então criatura, ele mandou que viesse aqui
realizar seu desejo!
- Sério? Então por que tenho que dizer se ele já
sabe o que quero?
- Porque tenho que ouvi-la em alto e bom som, ando meio surda, coisas
da idade... Do you understand?
- Eu quero ser linda, maravilhosa! Ter carisma e alegria pra cair nas
graças do público!
- Segure-se! Seu desejo é uma ordem!
Como num passe de mágica Ana Amélia transformou-se em uma
beldade. Agora, tinha o corpo perfeito, o entusiasmo e o carisma que precisava
e é claro o seu próprio talento...
- Está Linda! Mas, temos que mudar esse nome! Como Ana Amélia
você não chegará a lugar algum, quem dirá ao
sucesso! Seu nome de agora em diante será Eva Monroe, eu explico:
Eva porque foi a primeira mulher do mundo e Monroe foi a mulher mais sexy
do mundo! Gostou?
- A-d-o-r-e-i!!!
- Vá minha cara, o sucesso te espera!
No dia seguinte fez o teste para a peça de Walter Flávio.
Ele ficou encantado com sua atuação. Ganhou o papel principal
no musical. Tempos depois, muitos outros projetos de teatro, TV e cinema
surgiram. Era capa das melhores revistas. Choviam-lhe convites para festas,
eventos, comerciais. Seu rosto estava nos outdoors espalhados pelo país.
Tinha uma legião de fãs. Conquistou o sucesso absoluto...
Porém, perdeu a própria identidade... De seu, só
restou o talento. . .
Não tinha um minuto de paz. O telefone não parava de tocar,
eram revistas, jornais, canais de TV, todos querendo uma entrevista, uma
foto, e tudo mais... Na rua os fãs pareciam enlouquecidos, os fotógrafos
chegavam a invadir sua casa em busca de uma foto inédita.
Apesar de todo o sucesso, sentia-se angustiada. Muitas vezes sentia-se
só e com saudades das amigas com quem dividia o pequeno apartamento,
Nony, era sua amiga Drag Queen e Carla era a amiga loira-acompanhante-de-executivos-idosos,
com elas se divertia, podia tirar as máscaras e ser quem era. Lamentava
ter perdido isso.
Certo dia, exausta de todo o assédio em cima de sua falsa imagem,
arrependeu-se do pedido que fez ao seu Santo de devoção.
Mais uma vez, aos prantos, rogou:
- Sei que o senhor me deu o que pedi! Mas, vivendo tudo isso, entendi
que não é o que quero... Quero ser atriz, mas não
a esse preço! Quero ser eu mesma! Quero que as pessoas me aceitem
como sou! Quero meus amigos de volta! Por favor, me ouça...
- Aí menina, assim você deixa seu Santo Confuso! –
disse a fada anã aparecendo do nada no meio de uma fumaça
roxeada – Não é assim não! Tá pensando
que posso fazer e desfazer seus pedidos a qualquer momento? Agora vai
ter que agüentar, não tem jeito não...
- Por favor, me ajude! Eu quero de volta a vida que tinha! Quero meus
amigos! Ajude-me, por favor!
Desesperada Eva ajoelhou-se diante da anã em súplicas...
Ana Amélia debatia-se no sofá de seu apartamento deixando
Nony e Carla preocupadas.
- Aninha acorda menina! Acorda! – dizia Nony dando-lhe leves tapinhas
na face.
- Acorda Aninha!!! – reforçou Carla gritando no ouvida da
amiga.
- Não grita sua doida! Assim você mata a garota!
Ana acordou assustada, abraçou-as como se não as visse há
anos.
Apesar de não entenderem nada, Nony e Carla retribuíram
o abraço.
- Tudo bem Aninha? – perguntou Carla.
- Tudo... Tudo bem!
- Olha, o Walter Flávio ligou novamente para você. Ele não
entendeu nada quando você desligou o telefone na cara dele!
- Eu não quero falar com ele Nony... A atriz que ele procura não
sou eu...
- Como sabe? Aí Aninha como você é precipitada! Liga
para ele! Quem sabe não tem um outro papel para você?
Depois de muita insistência, ela finalmente ligou...
- Oi Walter Flávio, aqui é a Ana Amélia novamente...
É, caiu a linha... Mas como estava dizendo não consigo emagrecer
em uma semana. Mesmo assim, agradeço a gentileza... Não
preciso emagrecer? Como assim? A sua Marilyn vai ser gorda? Ah, você
vai fazer uma sátira ao atual estereotipo de beleza através
do ícone de Marilyn Monroe? Entendi! Então Walter Flávio,
encontrou a atriz perfeita! Então ta ótimo, até o
ensaio! Um super beijo! Ah, só uma pergunta como você lembrou
de mim? Um anúncio no jornal? Tá certo! Um beijo, tchau!
Emocionada, Aninha pulava de alegria.
- Não acredito! – disse sorrindo - Finalmente um papel de
verdade! Mas, uma coisa me intrigou...
- O que fofa? – perguntou Nony lixando as unhas postiças.
- O Walter Flávio disse que lembrou de mim por um anúncio
no jornal, mas, não fiz nenhum anúncio...
- É... Sabe Aninha! Lembra daquele dia que você pediu que
eu ou a Carla fizéssemos um anúncio no jornal?
- Sei, mas o que tem a ver?
- Bom, naquele dia estava um calor infernal e mesmo usando aquele topizinho,
ainda assim sentia um calor terrível! E por falar em top dona Carla
você ainda não me devolveu aquela blusinha de miçangas
que eu te emprestei!
- E por acaso você me devolveu minha meia rastão? Então
estamos quites, amiga!
- Quites uma ova! Pode devolver minha blusinha, que aquela meia rastão
não é sua, é da Didi!
- Didi que nada! A meia dela eu já devolvi faz tempo, meu bem!
- Chegaaaaaaaaa!!! Terminem a história do anúncio! –
gritou Ana.
- Onde eu estava mesmo? – perguntou Nony.
- No dia de calor – respondeu Ana.
- Pois é, então eu e Carla resolvemos comprar um sorvetinho
para aliviar! Por falar nisso, aquele sorvete estava maravilhoso! Não
é Carla?
- Nossa, nem me fala! Apesar, que prefiro o de Kiwi com chocolate!
- E tem esse sabor? – perguntou Nony surpresa.
- Claro, da próxima vez eu compro. Tá?
- Aí meu Deus! Termina logo essa história! – Ana estava
histérica.
- Então, daí a gente usou o dinheiro de pagar o anúncio.
Só que quando chegamos ao jornal, essa anta da Carla disse que
tinha esquecido a carteira em cima da mesa!
- Anta uma pinóia! Foi você quem esqueceu!
- Por favor, continua Nony! – suplicou Ana.
- O preço do anúncio era calculado pelo número de
letras, como tínhamos pouco dinheiro, resolvemos economizar nas
letras...
- Como assim?
- O anúncio era: Procuro trabalho ou peças artesanais para
montagem de cenário de teatro. Daí com nossa economia de
letras, ficou assim: Procuro trabalho peças de teatro. Falar com
Ana Amélia Junqueira e colocamos o telefone... O dinheiro só
dava pra isso!
- O sentido ficou o mesmo. Não achou? – perguntou Nony sem
graça.
- É, fizemos o possível Aninha...
- É Aninha, o sentido ficou o mesmo! – defendeu Carla.
- É, ficou quase o mesmo... Quase o mesmo uma pinóia! Vocês
trocaram alhos por bugalhos!!! Eu só não mato as duas por
que essa foi a melhor atrapalhada que vocês fizeram por mim!!!
No dia do ensaio, Walter Flávio chamou Ana Amélia dizendo
que estava convencido de que o papel fora feito para ela, era perfeita
para interpretar sua Marilyn.
- Walter Flávio eu agradeço muito a chance que você
está me dando! E de hoje em diante meu nome será Eva Monroe!
Faltava você 
A espera era angustiante, os minutos pareciam arrastar-se
preguiçosos, cruzava e descruzava as pernas em um impulso quase
que involuntário. Pegou a agenda na bolsa, abriu verificando os
compromissos para aquela data, era 23 de maio, a agenda estava lotada,
reuniões, ligações, projetos a entregar.
Olhou mais uma vez para o relógio havia passado apenas mais cinco
minutos, passou as mãos pelos cabelos em notória impaciência.
Vez ou outra olhava para a secretária do consultório em
seguida olhava para o relógio denunciando pressa.
Enquanto aguardava olhou os noticiários da TV, a notícia
apesar de rotineira não era nada agradável, acabara de ser
capturada uma quadrilha de assaltantes de bancos.
- Senhora Laura, pode entrar – disse a secretária.
Levantou-se e em passos firmes adentrou a sala do Oncologista.
O diagnóstico foi o pior, um tumor maligno no seio. Saiu meio cambaleante
do consultório, não contava com esse resultado.
Não conseguia chorar, por mais que soubesse da gravidade de seu
estado, simplesmente não conseguia chorar. Cobriu o rosto com as
mãos, estava fria, quase gelada. Sentia-se só, não
tinha amigos, os pais faleceram há alguns anos, o único
irmão morava em Portugal com a família. Sentia uma angustia,
um nó na garganta. . .
Entrou no estacionamento não lembrava onde havia deixado o carro.
Perambulou de um lado a outro. Não conseguia lembrar onde deixara
o carro. Respirou. fundo. Com a ajuda do manobrista conseguiu encontrar
seu carro.
Chegou em casa, deitou-se na cama, ligou a TV, a captura dos assaltantes
de banco ainda repercutia nos noticiários. . .
Olhava para a TV alheia com o pensamento vago, perdido. Ficou assim por
horas. Tomou um calmante, conseguindo dormir horas depois.
Teve pesadelos. Acordou assustada, ascendeu todas as luzes da casa. Tremia
muito, lavou o rosto, olhou-se no espelho estava bastante pálida.
Passou a mão em seu rosto como se estivesse dando carinho a si
mesma.
- Não quero ficar sozinha. . . Preciso de alguém para conversar.
Não tinha amigos, aliás, era uma pessoa bastante introvertida.
Foi para o computador. Jamais entrou em salas de bate-papo, abominava
aquilo, tinha o computador apenas para trabalho.
Agora se via sozinha em frente aquela máquina, sentia uma grande
necessidade de conversar com alguém. Conheceu Estela, trinta e
oito anos, arquiteta, mística, logo se afeiçoaram, dividiam
angústias, incertezas, alegrias. Contou a ela sem rodeios sobre
sua doença. Confessou que nos seus trinta e cinco anos não
tinha feito nada de interessante, não casou, não tinha filhos,
não aproveitou sua juventude, teve alguns namorados, mas nada muito
sério. Acreditava que seus pretendentes não estavam a sua
altura. Achava-se sempre muito correta, jamais cometeu algo que pudesse
se envergonhar. Era “a certinha”!
Estela sentiu vontade de ajudar aquela moça. Aconselhou-a viver,
sair, conhecer pessoas, ver a vida de outro modo, não encarar sua
doença como fim da linha.
Aos poucos, e com a ajuda da amiga, Laura foi mudando sua maneira de pensar.
Saia mais, ia à noite, barzinhos, cinema, teatro. Porém,
sentia falta de alguém, sentia falta de um namorado. Comentou sobre
seu desejo com Estela, que a incentivou a tentar encontrar alguém.
- Está louca!? Você acredita que alguém em sã
consciência ficaria com uma mulher doente?!
- Quem está falando de doença!? Estamos falando de sentimentos,
de momentos! Pare de se fazer de vitima! Não seja preconceituosa
com você mesma! Entenda que você está com um tumor,
mas esse tumor não é você! Mostre aos outros a pessoa
que você é, quantos momentos agradáveis você
pode dar e receber! Tente enxergar as coisas com simplicidade! Chega de
economizar sentimentos, você fez isso a vida inteira!
- Não é tão simples assim!
- Não vou ficar aqui tentando te convencer, te mostrando o caminho
das pedras. O que penso é que você está viva, e pode
viver ainda por mais dez anos, então ficar em cima do muro por
todo esse tempo é opção sua! Você está
nessa posição muito antes de descobrir essa doença.
Viver, conviver com pessoas aceitando-as como são é que
é difícil.
Laura passou vários dias refletindo sobre o que Estela lhe disse.
Decidiu que iria arrumar um namorado! Foi à caça!
Foi a algumas danceterias, há alguns meses não se imaginaria
em um lugar assim, bebeu, dançou, mas, não encontrou ninguém
interessante. Até que cansou de danceterias. Passou a fazer parte
de um grupo de apoio a mulheres com câncer que se reuniam semanalmente.
Aos poucos, foi se tornando mais humana, otimista, confiante. Sabia que
não era a única a passar por aquele problema, algumas passavam
situações muito piores que a sua, enfrentavam preconceito
até mesmo na família, outras eram abandonadas pelos companheiros,
maridos, perdiam empregos, e muitas outras situações constrangedoras.
O que não era o seu caso. Laura, desde o começo, contou
com o apoio da empresa em que trabalhava. Fez parte, também, de
um grupo de auxílio aos excluídos, carentes, visitava asilos,
orfanatos, presídios femininos e masculinos.
Em uma tarde de Domingo, o grupo visitou um presídio masculino.
Não conseguia se sentir bem naquele lugar. Sentou-se em um banco,
enquanto ouvia o sermão do padre a alguns presidiários.
Percebeu que alguém a olhava. Viu um homem bastante bonito, e olhar
penetrante. Disfarçou não queria que percebesse que ela
o tinha notado. Mas, não conseguiu por muito tempo. Olhou de novo
e para sua decepção ele não estava mais lá.
Deu de ombros.
Quando menos esperou o estranho estava na sua frente com um botão
de rosa.
- Qual foi seu crime? – perguntou o estranho revelando uma voz forte
encantadora.
- Aceitar uma rosa roubada! E o seu?
- 155
- E o quê é isso?
- Não sabe?
- Não, não fiz Direito.
- Eu também não, por isso estou aqui! Muito prazer Flávio.
. .
Passou a noite toda pensando naquele belo rapaz. Não teve coragem
de confessar a si mesma que estava interessada em um presidiário.
Conversou on-line com Estela, contando sobre sua ida ao presídio
e Flávio.
- Você sabe o que é 155?
- Como? – respondeu à amiga.
- Ele me disse que o crime dele foi 155. Estela, você tá
aí?
- Desculpe amiga, não consegui teclar, estava rindo um pouco. Há
alguns meses você era toda certinha, agora está flertando
até com ladrão! 155 é o artigo que qualifica furto!
- Não sei o que fazer, ele é encantador, mas ele é
um ladrão, um criminoso!
- E já esta pagando por isso!
- E se ele tentar fazer alguma coisa comigo?
- Fazer o que criatura se ele já esta preso!
- Sei lá aproveitar da minha carência!
- Aproveita a dele também oras! Será que você não
está deixando o preconceito falar mais alto?
Laura voltou ao presídio o procurava quando de repente ele apareceu
na sua frente.
- Boa tarde senhorita! Por onde andavas?
- Procurando o significado de 155!
- Eu posso lhe jurar que sou réu primário!
- O que roubou?
- Um banco.
- Quanto tempo esta aqui?
- Desde vinte e três de maio. Ainda estou aguardando julgamento.
Percebendo que ela ficou um tanto desconfortável com o assunto,
ele a convidou para conhecer sua família. Apresentou-lhe a mãe
e a irmã. Mulheres de aparência refinada, muito educadas
e simpáticas. Notou que ele não era de origem humilde. Conversaram
muito. A mãe lembrava as peripécias do filho quando criança,
das viagens à Europa, neste momento os olhos dela encheram-se de
lágrimas. Ele e a irmã tentaram consola-la.
- Perdão mãe!
Laura permaneceu em silêncio. No fim da visita ele perguntou quando
ela voltaria.
- Eu também gostei de você.
- Sabe de uma coisa? Você é mais 155 que eu!
- Por quê?
- Porque você conseguiu o que nenhuma outra conseguiu antes! Você
roubou meu coração!
- Tá legal, Don Juan!
A cada visita afeiçoavam-se mais. Laura passou a freqüentar
a casa dos pais dele. Foi muito bem aceita por toda a família.
Meses depois, a ausência repentina de Laura os deixou preocupados.
Flávio não se conformava, esperava todos os domingos, e
em uma ocasião chegou a chorar no colo da mãe como uma criança.
Pela primeira vez disse estar arrependido com a forma que conduziu sua
vida e de ter se envolvido naquele assalto por pura diversão. A
mãe concluiu que aquela moça tinha mudado seu filho, estava
mais maduro, ela conseguiu muda-lo em poucos meses o que seus pais não
conseguiram em uma vida toda.
Laura estava bastante abatida. Efeito da quimioterapia. Ligou para Estela.
Laura confessou que se afastou de Flávio porque não queria
que ele a visse naquele estado.
- Laura pare de sentir pena de si mesma! Você estava feliz! Você
nunca contou sobre sua doença a ele. E a situação
dele, também, não é nada boa! Os dois estão
carentes, precisando um do outro! Não tire isso de você e
nem dele! Vamos se dê uma chance! Precisa disso! Deixe esse orgulho
de lado! Além do que, você não consegue esquecê-lo,
é uma dor a mais para você!
Flávio conversava com a mãe e a irmã no pátio,
quando viu Laura aproximando-se cabisbaixa , sem graça, estava
mais magra com os cabelos bem curtos. Ele, sem dizer uma palavra, simplesmente
a abraçou. Ficaram assim por muito tempo sem nada dizer.
- Estou com câncer.
- Ficou muito bom o novo corte, aparece mais o seu rosto! – respondeu
sorrindo.
- Você ouviu o que eu disse?
- Ouvi.
- Não vai dizer nada?
- O que poderia dizer? Sinto muito? Como você se sente? O que vai
fazer? A única coisa que sinto é a felicidade de te ver
de novo. Por mais que pergunte como você se sente jamais poderia
entender metade. Sei que você já está fazendo algo
para amenizar isso. Você não está sozinha, estou aqui
para o que der e vier, e pode ter certeza que não vou fugir.
Ela não conteve o riso, era incrível o modo como ele encarava
a vida. Gostaria de ser assim.
- Você não quer saber quanto tempo ainda tenho de vida?
- Não! Meu amor não importa quanto tempo temos de vida,
o que importa é que nesse tempo temos Vida! Se fosse contar o tempo
que vou ficar aqui, definharia. Cada dia é um milagre!
- Não vivi nada, não aproveitei nada!
- O que é aproveitar? O que é saber viver? O que é
viver?
- Sei lá, mas tenho certeza de que viver não é isso
que vivi até hoje. . .
- É sim! Fez carreira, é uma excelente profissional, cuidou
dos pais. Fez muito! Que mal há em preferir ficar em casa que sair
para baladas? Viveu a seu modo! Quantos saem, vão para lugares
que não gostam para agradar os outros! Você foi autêntica,
fez o que quis. Não é verdade?
- Acho que sim. . .
- Talvez, se fosse um pouco como você, não estaria aqui!
Vivia sem limites e acabei perdendo minha liberdade! O relógio
do tempo despertou para nós dois! Aprendi que a vida é simples
é para ser vivida a cada dia, assim, simplesmente. Você despertou
para acelerar um pouco, arriscar um pouco, amar, ser amada, sem julgar
pelas aparências, sem pensar no amanhã. Para nós o
amanhã é uma esperança, cada dia que vivemos é
um sonho que se realiza.
- Por que não enxergamos isso antes? O que será que nos
faltou?
- Para mim Laura, faltava você. . .
O aniversário de Bia
Bia
acordou às 6:30h em um dia quente de verão. Bia detestava
aquela estação. Estava bastante estressada naquele mês.
Parecia que tudo a sua volta dava errado. Ainda deitada lembrou-se do
dia anterior, foi um dia daqueles em que o melhor era nem ter saído
da cama. A tão sonhada promoção no trabalho furou,
também pudera, a bonitona Turismologa catarinense com sua vasta
cabeleira irritavelmente sedosa e loura, seu rosto perfeito combinando
com os imensos olhos azuis, aí que ódio, seu corpo escultural
equilibrado em seus 1,80 m de altura, covardia! Com todos esses atributos
tinha mesmo que conseguir a vaga de diretora do departamento de marketing,
Bia era tão somente uma publicitária com dez anos de experiência
e alguns prêmios para decorar a estante. Era merecido que continuasse
como gerente. Ora! Esfregou o rosto o melhor seria esquecer aquilo, do
contrario explodiria. Sentou-se na cama, estava exausta, apesar de ter
conseguido dormir por seis horas interruptas. Deitou novamente. Pensou:
- Que dia é hoje?
Na última semana jogou todos os calendários pela janela,
aquele controle dos dias lhe pareciam como uma ditadura. Tudo bem estava
na TPM. Se perguntava baixinho:
- Que dia é hoje?
Lembrou que era dia 09, dia de seu aniversário. Pulou da cama
– Meu aniversário!
Decidiu que não iria trabalhar, se deu uma folga. Não ia
e pronto. Estava decidida. Decidida mesmo, pensou melhor, mas logo lembrou
da promoção da gostosona, e decidiu-se de novo: Não
vou!
Iria a floricultura, resolveu decorar a casa com flores, faria um jantar
e convidaria os amigos mais chegados. Não, melhor, convidaria aqueles
que ligassem lembrando de seu aniversário, estes sim mereceriam
comemorar junto a ela! Iria tomar um banho bem demorado. Que delicia!
Antes de entrar no banho tirou o telefone do gancho, não queria
ser incomodada. Pensou melhor, e se o pessoal da empresa quisesse ligar
para parabeniza-la? Recolocou-o no gancho. Ligou o chuveiro, a pouca água
lhe irritou. Aquilo era comum no prédio onde morava. Decidiu que
iria soltar os cachorros com o sindico. Incompetente! Tomou seu banho
rapidinho antes que faltasse água de vez. Seu banho de estrela
foi por água, ou melhor, por gota abaixo. Queria vestir algo alegre
e leve, viu no fundo do guarda-roupa o vestido azul royal estampado que
comprou no verão passado. Adorava aquele vestido. Como pode esquecer
aquela peça maravilhosa no fundo do armário, como se estivesse
o escondendo de si mesma! Tirou-o do cabide rapidamente. Vestiu, não
passava no quadril, acabara de lembrar o porquê dele estar no fundo
do armário. Seu devido lugar. Olhou no espelho disse bem dentro
dos olhos:
- Gorda!
Lembrou da boazuda catarinense que lhe passou a perna:
– Droga!
Olhou para o relógio 09:30 h. Caramba! Ninguém tinha ligado
até o momento.
– Hum! – resmungou.
Pegou as chaves. O elevador estava em manutenção. Quase
teve um troço. Descer oito andares de escada naquele calor, era
a morte. Desceu. Reclamando a cada segundo, mas, desceu.
A floricultura ficava próxima ao prédio onde morava. Que
ótimo, pois, andar naquele sol forte era tudo o que não
queria no dia de seu aniversário. Comprou alguns arranjos de flores.
Estava começando a se animar. Chegando no caixa pagou com o surrado
cartão de crédito. Para sua surpresa e embaraço,
o cartão foi recusado. A balconista bochechuda com olhar de peixe
morto a olhou com desprezo. Irritada, porém, controlada, Bia pegou
o talão de cheques e fez a repetida pergunta:
- Aceita pré-datado?
- Não - foi a resposta.
Não tinha outra opção a não ser passar o débito.
Era tudo o que não queria. Rezou para passar. Passou. Ufa! Pegou
as flores.
Chegando ao prédio lembrou que o elevador estava em manutenção.
Chamou o porteiro, mas este estava ocupado. Subiu. Reclamando a cada degrau,
mas subiu! Abriu a porta de casa ofegante. Largou as flores na mesa. Correu
para a secretária eletrônica. Para seu espanto, nenhum recado.
Talvez estivessem muito ocupados, logo, logo ligariam. Foi adiantar o
jantar. As horas foram passando, passando e nenhum telefonema. Nada. Aliás,
o telefone sequer tocou . Silêncio. Pensou nas amigas, em como elas
poderiam ter esquecido de seu aniversário. O Beto seu affair, como
ele pôde esquecer! Foi para cozinha preparar o jantar. Com raiva
exagerou no sal, no tempero, no palavriado, etc. Cinco da tarde, ninguém
ligou. Já era noite, jantar feito, mesa posta, flores decorando
a sala, Cd´s escolhidos e nada de alguém ligar. Possessa
decidiu ligar para as amigas: Ana, Cristina, Kátia, Rita, Magali
e é claro para o Beto. Ligou um a um.
- Alô, Ana? Não tá esquecendo de nada?
- Esquecer do quê?
- Deixa p´rá lá. Eu só não quero que
você esqueça do quanto eu te acho chata, egoísta e
ingrata! E sabe de uma coisa? Aquele seu vestido rosa-chá, aquele
que eu disse que era a sua cara, lembra? Pois é, eu menti! Você
dentro dele fica idêntica a Piggy do Muppet Show!
Desligou o telefone rindo sem parar. Correu para a próxima da lista.
- Oi Cris! Esqueceu de mim? E aí o que tá fazendo? Tá
com o Júnior? Ah, que bom! Então ouve só uma coizinha,
o Júnior tá saindo com a Suzana. Todo mundo sabe, menos
você sua trouxa.
Bateu o telefone com gosto, ria e ria. Aquilo estava ficando divertido.
- Alô, Magali?
- Oi Bia! Porque você não foi trabalhar hoje? Ficamos preocupados.
Olha, não te ligamos porque deu pane nos telefones da empresa.
Você sabe, isso virou rotina por lá. Esperamos que você
ligasse!
- Eu ligar? Essa é boa? Conta outra? E cadê seu celular??
Vai catar coquinho!
- Tudo bem com você Bia?
- Tuuuudo ótimo! Não está ouvindo a música
no fundo? Pois é, estou dando a maior festa e você não
está convidada e sabe porquê? Por que você tem mau
hálitooooo!!!
Desligou rindo debilmente. O melhor estava por vir. Era a vez de Beto.
- Oi Beto!
- Oi gata, como você tá?
- Eu? Estou ótima! E aí, esqueceu de mim?
- Pô broto lógico que não! Até pensei em te
ligar para você me quebrar um galho e emprestar o seu cartão
de crédito. Minha motoca deu problema de novo cara!
- Ah, lembrou do meu cartão! Pois acho melhor você esquecer
do cartão e da dona do cartão também. Na verdade
eu sempre te achei um banana!
- Pô gata! Que qué isso meu?
- Lembra daquele fim de semana que a gente foi para a casa do seu tio
em Atibaia?
- Claro! Eu passei mal a viagem toda!
- Pois é seu bobão, eu fiquei com aquele seu primo maravilhoso,
o Juliano. Pois é, e olha, ele te deixa no chineloooo!!!
Bia desligou o telefone rindo freneticamente, chegando a cair do sofá
de tanto que ria. Já havia bebido um pouco além do permitido.
De repente parou de rir olhou para toda decoração, a mesa
posta, o vinho, teve uma crise de choro. Entre um soluço e outro
ia bebendo todo o vinho que tinha comparado especialmente para aquela
ocasião. Bebeu tanto que acabou dormindo ali mesmo, no sofá
Na manhã seguinte acordou com o toque do telefone. No meio daquela
bagunça não conseguia encontrar o “bendito”
aparelho. Pensou que deveria ser alguém da empresa. Pensou no que
dizer. Diria que estava doente e que por isso não iria trabalhar
naquele dia também. Lembrou da loirona que já estaria ocupando
a cadeira de diretora.
- Aí que ódio!
O telefone parou de tocar. Foi ao banheiro. Que baita ressaca. Lavou o
rosto inchado. Jurou que nunca mais beberia tanto. Sentou no sofá,
relaxou um pouco. Lembrou da noite anterior e de tudo o que havia dito.
Arrependeu-se um pouco. Nunca havia passado por um aniversário
tão ruim. Deu de ombros:
- Eles bem que mereceram!
O telefone tocou novamente. Ela suspirou fundo e atendeu.
- Alô dona Bia? Aqui é o Marquinhos da farmácia!
- Oi Marquinhos.
- É, me desculpe por estar ligando logo cedo, mas é que
aquele cheque que a senhora pré-datou, voltou. Eu quero saber se
já podemos reapresenta-lo.
- Aí caramba! O cheque! Claro que podem! E me desculpe pelo transtorno!
- Que isso dona Bia, isso acontece! Eu só liguei por que a senhora
sabe como é, né? Eu sou apenas um funcionário, e
o seu João fica pegando no meu pé! E como a senhora pré-datou
para o dia dois e hoje é dia nove . . .
Do outro lado da linha silêncio . . .
- Alô, dona Bia? Alô? Alô? Alô, dona Bia . . .
Vivo está todo aquele que ainda sorri
A chegada da primavera trazia flores e calor. Nem a beleza da estação era capaz de tirá-la de seu mundo de dor e silêncio. Esquecera da última vez que ouvira a própria voz. Os filhos pequenos rogavam por um pouco de sua atenção. Os maiores desistiram de tentar.
Sua mente tornara-se um turbilhão de questionamentos silenciosos. Pedia uma resposta capaz de convencê-la a continuar. Quando fechava os olhos, caindo em sono profundo, via aquela figura correndo feliz em sua direção, jogando-se em seus braços. Juntos rodavam de mãos dadas, brincavam de pega-pega, construíam castelos na areia. Ali não cabia tristeza, saudades. Tudo era perfeita felicidade. Permaneceria assim para sempre, porém, o clarear do dia, o canto dos pássaros, a fala das crianças, devolvia-lhe à realidade.
Numa noite, de chuva forte, ouviu daquela voz serena um apelo à vida: “Mãe, vivo está todo aquele que ainda sorri”. Aquele sorriso largo e a frase continuaram em sua mente.
Após meses de pura inércia, conseguiu sair da cama. Na gasta bolsa de tecido barato, encontrou alguns trocados; era a conta certa para a passagem de ônibus até a praia. Na viagem, rogava forças ao alto. Precisava exorcizar a angústia que a sufocava sem piedade. Os filhos careciam de sua presença viva, saudável; entregar-se não mudaria o rumo das coisas. A retomada à vida era urgente.
Pisou na areia alva e fofa como se pisasse em brasas. Aproximou-se da água.
O vento balançava, levemente, sua saia. Dos olhos, fixos na linha do horizonte, brotavam lágrimas que lavavam sua face cansada. As ondas beijavam-lhe os pés, como se pedissem perdão por ter roubado seu maior tesouro. O mar levou Moisés pra sempre, e pra sempre ele sorri.
Danny sem Noção
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Ficha Técnica
Danny: 13 anos
Perfil: Super legal, super amiga, super feliz, super. . . Qualquer outra
coisa
Amigas da Danny: Fe, Le, Re, Pri, Dri, Gi, Taty e Paty.
Passatempo preferido da Danny: Testes de revistas para adolescentes. |
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Parte 2 |
A Danny anda um tanto preocupada. Pensativa. Passava horas trancada no quarto. Com as pernas, cruzadas, em cima da cama e um caderninho das “Garotas super fashion” apoiado numa almofada, Danny batia, levemente, no queixo a caneta rosa das “Garotas super do bem” (daquelas que tem na ponta umas pluminhas rosa-choque suuuper linda). A menina estava mesmo concentrada. Mascando chiclé, espremia os olhinhos. Vez ou outra inclinava a cabeça, cheia de frufrus, olhando para o teto, batendo a super canetinha no canto da testa. Danny pensava, pensava muito.
Logo o silêncio do quarto fora invadido por um turbilhão de risinhos frenéticos da Gi, da Pri, da Mi, da Ci, da Li e da Dri, as super amigas da Danny.
- Oi migaaaaaa!! – gritou Dri jogando-se sobre a amiga.
As outras espalharam-se pelo quarto. A Gi se olhando fazendo caras e bocas no espelho, a Ci e a Mi aconchegaram-se no chão pra ler a nova edição da revista “Garotas super divertidas que sabem o que querem”. Enquanto que a Li e a Pri procuravam o mais novo CD das “Garotas super legais, super lindas, super dançantes”. Toda essa agitação em meio a gritinhos e muito risos.
- Que ta fazendo Danny? – Dri puxou o caderninho da amiga.
- Cara, to suuuper bolada!! – confessou.
Todas olharam curiosas e de queixo caído.
- Por quê?! – perguntaram quase ao mesmo tempo.
- Mêu, me inscrevi num concurso de poesias!
Uhuuuuuuuu!!! O frenesi foi geral. Batiam as mãozinhas uma das outras com gritinhos de guerra.
Revezaram nas opiniões:
- Cara isso é demais!!
- Irado!!
- Muuuito 10!!
- Suuuper legal!!
- Uhuuuu!!!
- Dgenth, cês não tão entendendoooo!!
- Qual o problema?! – Pri perguntou, em seguida soltou um gritinho por ter encontrado o CD.
- O prazo é até amanhã cedinho e eu preciso de um pseudônimoooooo!!!
- Ã?! Que isso?! – Gi tava suuuper confusa.
- Meu nome artístico, dããããããã!
- Aí que suuuuuuper!!!
Euforia geral.
- Entããão vamô pensar num pseu... Num nome artístico, oras! – Dri tava suuuper animada.
- É o que tô tentando fazer há dois dias!
- A dgenth ti ajuda miga! – Garotas suuuper solidárias.
Passaram horas sugerindo nomes que fossem suuuper legais, suuuper descolado, suuuper diferente, suuuper qualquer outra coisa. Anotavam todos, cada qual com suas suuuper canetas de pluminhas coloridas.
Muito tempo depois, finalmente escolheram um que a Danny suuuper adorou:
Jhenniffer Louis Sprinnghers.
Nada de economizar nos “N”, “H”, “F”. Nome artístico tem que ser caprichado. Segundo elas, claro.
Decidiram até mesmo como seria a assinatura do tal nome. Como não?! E os autógrafos na noite de lançamento?! Uma suuuper assinatura era coisa de suma importância! No conceito delas, é claro.
Fim de tarde, as garotas suuuper amigas estavam suuuper exaustas. Escolher um nome artístico é tarefa que requer suuuper esforço intelectual, tarefa nada fácil. Danny, por sua vez, estava suuuuuper satisfeita.
Noite chegando. Missão cumprida.
Na despedida as amigas lembraram de perguntar da poesia.
- Ahhhh Dghenth, ainda não pensei nisso! To suuuper cansada!
- Você sabe fazer poesia?! - questionaram um tanto duvidosas.
- Claro né, dããããããã! Quem não sabe?!
Aliviadas trocaram o ar preocupado por mais uma rodada de risinhos soltos e gritinhos de UHUUUUUU!!!
Passada uma semana, as “migas” reuniram-se na casa da Danny, era a data do resultado. Acessaram o site do concurso, trocando olhares de expectativa, sufocando risinhos de ansiedade. Seis carinhas coladas ao computador que não escondiam a decepção ao ler o resultado.
- Ã?! – Danny suuuuper confusa - A ganhadora foi essa tal de Ana Silva?! – Danny suuuper inconformada.
- Dghenth, que pseu... Que nome artístico horrrrrrrivél!!! – Dri também.
Desalento total.
- Dghenth, ta provado que esse pessoal de Concurso de poesia não tem a menor criatividade!! – Danny dando suuuuper volta por cima.
Gargalhadas, gritinhos, Uhuuuuus. O clima “suuuper legal” voltou ao normal. |
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Parte 1 |
Certo dia o avô da Danny, um senhor de 86 anos, foi
buscá-la na escola. Combinaram de encontrar os pais dela na cidade
vizinha. Viagem longa, uma hora de ônibus. Sem as amigas, se sentiu
um tanto deprimida. Nada pra fazer. Tédio total! Sacou da mochila
uma dessas revistas para adolescentes. Leu, re-leu.
- Que saco! – bufou.
Mais uma folheada e encontrou um super-teste “Você sabe levar
um fora e sair numa boa?”. Sem nenhuma amiga por perto resolveu fazer
o teste com o vovô, que estava lá, na sua, olhando a paisagem,
alheio a tudo.
- Vô olha só, vou fazer um teste com você. Ókééi?
- Hrum – resmungou sem entender nada, continuava alheio olhando a
paisagem.
- Ó presta atensaum! Você tem que responder as alternativas
a, b ou c.
- C.
- Que c? Alôôôôuuu!! Ainda naum comece-ei! Vai,
vou começar, si liga: “Você sai pra balada e encontra
aquela gatinha e ela não te dá a menor bola. O que você
faz? a) Vai embora com os amigos pra outra balada; b) Nem liga e fica com
outra gatinha; c) Vai para um canto chorar no ombro de um amigo.”
- C.
- Ah, fálá sério! Dããããã!
Continuando: “Você descobre, através de um amigo, que
o seu melhor amigo ficou com a garota que você ficava. O que você
faz? a) Nem liga, você já partiu pra outra; b) Fica chateado
mas, não perde a amizade; c) Procura os dois pra tirar satisfação,
dá na cara da garota e sai na porrada com o amigo.”
- C.
- Crééédo, o mêue violência não
leva a nada! Sacou? Outra pergunta: “Você convida uma gatinha
pra balada, ela recusa e diz que no sábado à noite vai levar
o irmãozinho ao cinema”. O que você faz? a) Convida outra
menina; b) Fica furioso e decide nunca mais convida-la; c) Compreende e
acha lindo.”
- C.
- Que C o quê! Dãããããã!
Ô si liga! Ninguém troca uma balada de sábado à
noite pra levar irmãozinho pro cinema! Hum, cada uma! Vai, continuando:
“Você vai dançar num baile de debutante, daí convida
a garota que você esta super afim e ouve um sonoro ‘Ããããhhh!
Ta louco!? Viajou você, heim!’. O que você faz? a) Chora
a noite inteira; b) Dá risada na cara dela e diz ‘tava zoando
contigo bruxa!’; c) Convida outra garota, afinal, a fila anda.”
- C.
- Aêêêêê! Súúúper! É
isso ai, gostei! Ó si liga: “Depois de um longo namoro de uma
semana, a garota vira pra você e diz: ‘Méu, tipo assim,
acho que a dgentchi naum tem nada a vê’. O que você faz?
a) Tudo bem, estava mesmo com saudades dos amigos e das baladinhas; b) Arma
o maior barraco; c) Implora para que ela não te deixe, pois, não
vive sem ela”.
- C.
- Sério!? Bom, agora, vamos ver quantos pontos você fez. Caraca!
Só dez pontos! Ó presta atensaum, vou ler o seu perfil: “Você
precisa aumentar sua auto-estima. Levar um fora é super normal. Curte
a vida, as baladas, afinal, você ainda tem muito para aproveitar.
Isso é só o começo”. Nóóóssaaaa!
Súúúúper legal! Eu adoro esses testes dão
súúúúper certo!! |
Érik
|
Ficha Técnica
13 anos.
Perfil: Sem noção-mor.
Amigas(os): Danny(sem noção) e o dedo indicador.
Sonho (impossível): “Ficar” com a Dri. |
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Parte 4 |
Danny voltava da escola para casa visivelmente suuuuuper chateada, levando sua super bicicleta rosa purpurina. Eric, correu até alcançá-la.
- Por que você saiu da escola com tanta pressa Danny? – perguntou ofegante.
Vendo que a amiga não estava para conversas, perguntou mais uma vez. Danny nem aí pra ele.
- Ô Danny, fala comigo mêue! Você ta doente? Ta com dor de barriga?
- Aí que dor de barriga Eric!!
- Então que cara é essa? O que aconteceu?
- O Lucas terminou comigo!
- Caracaaaaaaaaa!! Sério?! Vocês ficaram um tempão juntos, né?
- É... Acho que... – Danny fazia as contas – Uns quatro... Não, uns cinco dias mais ou menos.
- Cara!! – Eric deu uma pausa – E por quê ele terminou?
- Ah sei lá! Disse que era uma coisa de pele, sei lá! – Danny parou e perguntou ao amigo – Ô Eric, você que é menino, o que você acha que ele quis dizer com isso, heim?
- Ele disse que era coisa de pele?
- É.
Eric pensou, pensou, pensou e pensou mais um pouquinho.
- Ô Danny, isso é racismo cara!!
- Ãh? Ta louco você?! Aí... Ghenti... Eric... Naum sei como ainda te dou atenção cara!! – Danny, suuuper chateada, subiu na super bike e saiu sem destino.
- Que foi? Aonde você vai? Ô... Ô Danny me espera aí ô!! |
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Parte 3 |
Eric voltava da escola pra casa chutando pedrinha. Distraído, pensava no play station 4; se o sorvete de papaya com cassis é mais gostoso que o de truffas; no lançamento do Homem Aranha 5 e... Ah, “ficar” com a Dri, Eric ainda sonhava em “ficar” com a Dri. Absorvido em seus pensamentos, não notou que, do outro lado da rua, duas ciganas apontavam pra ele. Uma delas correu até alcança-lo.
- Menino deixa a Cigana Odhara lê sua mão.
- Ãããã? Cigana Odhara? Cadê ela?
- Na sua frente!
- Ahhhh! É você? Ta bom, pode ler.
- Hum vejo aqui que você gosta de uma garota muito bonita...
- Ca-ra-ca!!! Você viu isso aí na minha mão?!
- É, e você não consegue ficar com ela. Olha aqui, isso ta escrito nessa linha aqui. Ta vendo?
- Sério?! Mêu que loco!! Que mais que diz minha mão?!
- Ah... Pra Cigana terminar de ler tem que ajudar a Cigana...
- Ajudar em quê?!
- Em papel que vale ouro.
- Vixiiiiiiiiiiiii!! Num tenho isso não mêu!
- Então Cigana não pode ajudar menino a ficar com a menina Dri!!
- Mêu!!! Você sabe o nome dela?! Ca-ra-ca!!! Num to crendo mêu!
- Sua mão revelou tudo pra Cigana!
- Sério?! Si-nis-tro!! Me fala se vou ficar com a Dri então!
- Mas menino tem que ajudar a Cigana!
- Eu não tenho esse papel aí que vale ouro! Ah!! Tenho dinheiro aqui, serve?
- Hum... Fazer o quê? Serve né. Cigana vai quebrar teu galho.
- Me diz se ta escrito aí que vou ficar com a Dri.
- Olhe, ta escrito aqui que você vai ficar com ela sim!
- Uhuuu! Sabia!! Ca-ra-ca!! A senhora sabe tudo de mão mêu! Bagulho muuito loco!!
- Hum... Mas ta escrito aqui... Ó ta vendo essa linha aqui?
- To vendo!
- Essa linha aqui... Essa linhazinha aqui diz que alguma coisa impede você e a Dri de ficarem juntos e felizes para sempre!! Mas pra tirar esse empecilho tenho que mudar as linhas da sua mão.
- Ca-ra-ca!! To en-ten-den-do!! Tipo, se mudar as linhas da minha mão, daí eu consigo Ficar com a Dri?!
- Exatamente!!
- Ahhhhh!! Show mêue!!
- Pra mudar as linhas da sua mão, você vai ter que ajudar a Cigana.
- Lógico mêu!! Quanto que é?!
- Uns R$ 20,00 já dá!
- Putz, Não tenho trocado! Só tenho essa nota de R$ 50,00.
- Eu troco pra você ali com minha amiga!
- Falou!! Corre lá!!! Uhuuuu!! Si-nis-tro to-tal!!!
A “Cigana” correu muito, tanto que Eric a perdeu de vista.
- Não acredito que você conseguiu outra vez!!
- É esse garoto me dá “sorte”, desde a semana passada!! |
|
Parte 2 |
Dia desses Eric estava teclando no e-blábláblá
e levou um susto quando viu que a Dri tentava puxar papo.
- Eaê Dri, belê, (risos)
- Belêêêêêêê, e com vc? (risos)
- Ta fazendo o quê? (risos)
- Falando com vc ué! Dããããããã
(risos)
- Ah, essa noite sonhei com vc, mó doidera (risos)
- Sonhou o quê? (risos)
- Num posso falar! (risos)
- Porqueeeeeeeeeeeeeee heimmmmmmmm (risos)
- Melhor não falar (risos)
- Ah Ériiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiic, fala vaiiiii! (risos)
- Vc vai ficar brava? (risos)
- Claro q Naum, pode fala-ar! (risos)
- Eu sonhei tipo assim , mêu, mó doidera cara, muito loooocoooo
(risos)
- Fala logo Éric!! (risos)
- Sonhei que a gente tava tipo, sei lá, namorando (risos)
- Ahhhh!! Seu sonho pode virar realiiiii-daaaa-deeeeeeee (risos)
- ?!!
- Ériiiiiiiiic cadê você-e? (risos)
- ...
- Ériiiiiiiiiic, cadê vocêêêêê?
(risos)
- O moleque!! Já não falei pra você parar de mexer no
meu computador?! Sai do meu quarto AGORA!!
- Ah Dri, tava mó legal a brincadeira!!
- Já falei pra sair! O Mãieeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, o Cadu
ta mexendo di novo no meu computadoooooooooor!!
- Ta bom, ta bom estressada, eu to saindo!!
- Deixa ver com quem você tava teclando... Hããããããã,
Éric?! Ô ta doido você?? Mêu, vou desligar esse
computador antes que ele venha bater papo comigo!! |
|
Parte 1 |
No último sábado Eric ligou para Danny.
- Iaê Danny, legal? Meu, tu num vai acredita, mas a Dri ta, tipo assim,
ta . . . Apaixonada cara!
- Dgentchi! Sério?! Por quê?!
- Ontem ela me viu na cantina e disse: “Me paga um lanche?”
respondi: “To sem grana” daí ela disse: “Então,
me dá o seu!” respondi: “Sério? Acabei de comprar”
daí ela disse: “Melhor, pelo menos não ta babado”
respondi: “Fala sério Dri! Por que logo o meu?” daí
ela disse: “Porque você é o único garoto encefálico
que conheço que pode me pagar um lanche!” Meu ai caiu à
ficha, entendi tudo cara! Ela disse “que eu sou o único!”.
Diz ai, ela não se entregou?
- Ô Eric, fala sério! Você num ta assistindo aula de
biologia? Meu, si liga!!
Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
- Odeio quando a Danny desliga na minha cara! E Ainda muda de assunto! Ah,
fala sério! |
Malu
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Ficha Técnica
Malu, 05 anos
Irmã da Danny (sem noção)
Amigas (os): Guilberth, Bia e Bulú (o palhacinho encardido).
Hobby: Escalar estantes e armários.
Sonho do momento: Ser um Iglu (!?). |
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Parte 3 |
Malu estava muito concentrada. Tentava embrulhar, sem muito jeito, um livro em papel de presente. O pai, vendo o esforço da pequena, foi ajudá-la.
- Isso é um presente Malu?
- É, é um presente.
- E o que é?
- Um livro com as estórias de todas as princesas.
- Esse livro é seu?
- É. Já li muitas vezes e não preciso mais dele. Já aprendi tudo.
- Pra quem é o presente?
- Pro Guilberth.
- Guilberth? Como assim? Você não pode dar um presente desses para o Guilberth Malu!
- Por que não?
- Porque ele é um menino!
- E daí?
- Meninos não gostam de estórias de princesas Malu!
- Quem falou isso?
- Todo mundo sabe disso! Meninos gostam de bola!
- E por que eles não podem gostar de estórias de princesas?
- Bom... Eu não sei Malu, só acho melhor você dar uma bola pro Guilbert ao invés de dar esse livro.
- Ah não, eu quero dar esse livro – Malu tem personalidade.
- E se ele não gostar?
- Ele vai gostar sim!
- Como você sabe?
- Porque no meu aniversário ele me deu uma bola e eu gostei e todo mundo diz que bola é pra menino, mas eu sou menina e gostei da bola! E brinco com minhas amigas. Então por que o Guilberth não vai gostar desse livro de princesas?
O pai se viu em uma arapuca. Nem mesmo ele sabia explicar porquê meninos não gostam de estórias de princesas, lembrou que na infância gostava de ouvir a mãe contando essas historinhas para irmã caçula. Não lembrava quem dissera que meninos não gostavam de ouvir essas histórias, mas sabia que entre meninos nenhum admitia que se divertiam ouvindo-as, aquilo era coisa de menina.
- Deixa eu ajudar a embrulhar! |
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Parte 2 |
-Vem Malu, vamos ao supermercado!
-Que horas são?
-São 17 horas e 45 minutos!
-Não pai!! A gente não pode sair não!
-Por que não?! Você adora ir ao supermercado Malu! Qual a nova?!
-Pai o Guilberth falou que hoje quando começar anoitecer a gente vai conseguir ver tooodooos os planetas.
-Que exagero!! Uns dois tudo bem.
-Então é verdade?
-É Malu, às vezes isso acontece. Mas e daí?!
-Daí que a gente não vai poder sair! O Guilberth disse que o céu vai abrir e a gente vai ver os E.Ts na casa deles, assistindo televisão, jogando vídeo-game, fazendo lição de casa, arrumando a casa e muitas outras coisas que os E.Ts fazem! E eles vão ver que a gente ta vendo eles, daí vão vir pegar a gente porque eles não gostam que a gente veja eles fora das naves deles.
-Minha filha! O Guilberth tem uma imaginação invejável.
-É pai o Guilberth sabe das coisas ele tirou 10 no quadrinho de colagens!
-Claro, a mãe dele é dona da escolinha – resmungou o pai descrente do talento do garoto – Malu pode ficar tranqüila que o céu não vai abrir hoje à noite. Primeiro deixa explicar passo a passo: o que você vê lá em cima e que chamamos de céu, é a camada de ozônio.
-??
-Calma eu vou explicar: camada de ozônio é um gás que fica em volta da terra para proteger os animais, plantas e seres humanos dos raios ultravioletas emitidos pelo Sol. Sem a camada de ozônio os raios ultravioletas poderiam acabar com todas as formas de vida no planeta – É, o pai da Malu tem uma didática infantil invejável. A cara que a Malu fez era a prova disso.
-???
-Malu, imagina que a terra é uma laranja. Faz de conta que a casca da Laranja é a camada de ozônio e laranja é a terra. A casca proteje a laranja.
-Hum – Malu começava a entender – O que isso tem a ver com os E.Ts de hoje à noite pai?
-Então, essa camada é bem fina, por isso podemos ver as estrelas e os planetas à noite – o Pai sabia dar as respostas mais simples para alguém com muito mais que cinco anos, é claro. O que definitivamente não era o caso da Malu.
-E por que não conseguimos ver de dia? – a pergunta soou desafiadora.
-Porque a luz do sol é tão forte que apaga o brilho das estrelas e dos planetas, que só ficam com um pouquinho, um reflexo do brilho do sol, mas é insuficiente para serem vistos durante o dia, a não ser com uso de equipamentos potentes... – o pai pensou um pouco, como é difícil ser claro sem complicar – Bom, vamos ao que interessa pra você no momento! E em algumas épocas é possível ver alguns planetas, à noite, com mais nitidez através de binóculos, telescópios. Com telescópios é melhor – O pai da Malu é um gênio – Pra finalizar, não se preocupe! Dou minha palavra que hoje o céu não vai abrir e você não vai ver nenhum E.T na casa dele jogando vide-game.
-Hum... – a menina parecia decepcionada – Então eles não vão ver a gente?
-Não Malu! Não mesmo! E aí, vamos ao supermercado?!
Malu pensava... E pela carinha que fez, parecia ser algo de supra-sumo.
-Pai você compra um telescópio pra mim?
-E pra que você quer um telescópio Malu?!
Com sorrisinho maroto respondeu:
-Ah, já que eles não vão me ver, eu quero ver eles jogando vídeo-game!! |
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Parte 1 |
- E você sabe o que é um Iglu Malu? –
perguntou o pai desesperado tirando a pequenina de dentro da geladeira.
- Sei! O Guilberth disse que Iglu são pessoas que moram dentro da
geladeira!
O (pobre) pai, já mais calmo, explicou (como pôde) que Iglu
não são pessoas, são “casas” onde moram
os Esquimós.
- O que é Esquimó?!
- São povos que vivem na região Ártica. – essa
era uma resposta simples para um pai - Como posso explicar – coçou
a cabeça, pensou, lembrou das contas pra pagar, a janela pra consertar,
o carro na oficina, o aumento da gasolina, e todas essas coisas que os pais
pensam. Até que voltou para a pergunta da Malu – Eles vivem
em um lugar onde só tem gelo, tudo é gelado, até a
casa deles os “iglus” são feitas de gelo, mas por dentro
não são geladas, por isso eles conseguem viver lá dentro
entendeu?
- Hum – Malu pensava, pensava - Entendi! Lá é a casa
do sorvete! Que nem o Pólo Norte é a casa do Papai Noel!! |
Menina-Joaninha
Joaninha foi criada pela madrinha. Menina-Joaninha é quem fazia tudo na casa da madrinha, lavava, secava, passava, cozinhava, varria, limpava, arrumava a bagunça deixada pela madrinha, e ainda sonhava... E como sonhava essa menina! E Joaninha acreditava em seus sonhos. E dizem que aquele que tem fé naquilo que quer, tem o poder de transformar sonho em realidade! E isso é verdade...
Quando reparava Joaninha parada, encostada no batente da porta olhando pro nada, madrinha advertia com voz preguiçosa:
- Joaninha pare de sonha! Vá minha filha, vá trabalha vá! Me de cá um copo d’água... Aí, to tão cansada.
Joaninha acostumou-se com a “moleza” da madrinha, a bichinha, desde pequinininha, ouvia as lamuria da mulher.
- Uma Águia branca um dia virá me buscar! – esse era o sonho de Joaninha.
- Joaninha, minha filha deixe de sonha! Águia branca não existe desse lado de cá! – resmungava a sonolenta madrinha deitada no sofá.
- Existe sim madrinha! E pode se preparar, um dia ela vem me buscar! – afirmava Joaninha com absoluta convicção de que tal sonho não era ilusão.
- Arrepare, eita menina que sonha meu Deus! Vá, vá minha filha, vá prepara meu chá, to muito indisposta hoje! Vá trabalha vá!
- Hoje e todo dia! – dizia Joaninha enquanto passava pano no chão.
- Vixe, menina que resmunga meu Deus! Resmungue não minha filha, isso faz é mal! Cuide bem de sua madrinha que já estou no fim de meus dias.
Anoitinha, Joaninha abria a janela de seu pequeno quarto, olhava pra lua e pedia:
- Traz minha Águia branca dona lua, por favor!
Depois da oração, Joaninha adormecia sozinha na casa.
A madrinha? Toda noite acontecia um milagre na vida da madrinha. Quando o sol dava lugar à lua, a mulher rezava pedindo em alto e bom som para que sua santa de devoção a curasse daquele mal. E o milagre acontecia. Madrinha pulava do sofá, escolhia um belo vestido e dizia que tinha que agradecer pela graça recebida.
- Vai à igreja madrinha? – perguntava Joaninha ainda que soubesse da resposta.
- Vo não Joaninha, igreja já ta fechada. Mas preciso agradece pela graça alcançada, por isso vo lá pro baile de salão, conta pros meus amigos o que aconteceu comigo depois que fiz o pedido!
- Será que a santa se agrada desse modo de agradecer por uma graça alcançada?
- Arrepare menina, deixe de graça! E Santa gosta de tristeza? Gosta nada, gosta de alegria! Ela gosta de ver seus devotos alegres, dançando festejando o milagre! Por que ta me olhando com essa cara? Viiiixe menina sem alegria meu Deus! Vá dormir vá minha filha! Vá que amanhã vamo acordar é com as galinhas!
Era assim todos os dias, à noite a madrinha caia na folia da dança de salão. Joaninha dormia cedo, e quando o sol nascia já tinha louça na pia e muito trabalho na casa. A madrinha passava o dia deitada no sofá dormindo até roncar. Quando acordava, se espreguiçava feito gato, pedia seu almoço, seu chá pra relaxar, pedia tudo sem levantar do sofá. Essa era a rotina da pobre Joaninha que nada tinha além do poder de sonhar. E como sonhava essa menina...
Certo dia, Joaninha limpava a varanda quando viu, ao longe, um pássaro grande voar. Animada Joaninha gritou:
- Madrinha, madrinha! Minha Águia branca chegou!
A madrinha sonolenta, deitada no sofá, abriu devagar um dos olhos deixando o outro descansar:
- Eita menina mais doida, meu Deus! Joaninha, arrepare menina, num vê que aquilo é um urubu pintado de tinta branca? Vá minha filha, vá trabalha, deixa de sonha! Traga cá meu café que o programa da Chica Banana vai começa!
Madrinha cochilou. Quando acordou, assustou-se com a hora.
– Vixe, que são quase sete da noite! – mais que depressa rogou a sua Santa de devoção, um tantinho de saúde pra cuidar de sua afilhada que nesse mundo não tinha nada, além daquela pobre madrinha adoecida. E como milagre era algo que acontecia com freqüência na vida da madrinha, foi prontamente atendida! Muito disposta pôs-se a chamar pela afilhada:
- Joaninha, venha cá minha filha!! Passe pra mim aquele vestido rosa de cetim. To atrasada, preciso me aprumar pro baile de salão, minha única diversão nessa dura vida de viúva, madrinha de órfã e de mulé adoecida que sou – madrinha começava seu lamurioso discurso pós-milagre de todos os dias – Venha cá Joaninha, se apressa minina, você vai me atrasar! Eita minina sossegada meu Deus! Joaninha, atenda a madrinha, não faça mal criação, to tão fraquinha... Traga meu caldo de galinha, tenho que me alimenta pra pressão não baixar! - Madrinha ficou atordoada com o silêncio de Joaninha – Joana, ô Joaninha, minha filha pare de sonha, venha cá! Atenda a madrinha, acho que to no fim dos dias! Mas, já que melhorei um bucadinho tenho que comemora! Joaninhaaaa!! Eita, menina despreocupada meu Deus! – enquanto chamava por Juaninha, madrinha bocejava e coçava a cabeça descabelada.
Passado um tempinho, chegou Dona Flô, amiga da madrinha.
- Flô, mulé de Deus, Joaninha sumiu!
- Sumiu nada! – gritou da cozinha - Olha, aqui tem um bilhete de Joaninha!
- Ié Flô? E o que diz esse bilhete? – perguntou deitando-se no sofá.
- Venha cá vê, eu num sei lê!
Madrinha não sabia mais o caminho da cozinha, fazia tempo que não pisava lá.
- Arre égua mulé, vou até aí nada! To muito cansada, preciso me resguardar pra hora do baile de salão! To ficando aperreada com essa situação. Traga aqui mulé, me deixa vê esse bilhete.
“Querida Madrinha, hoje minha realidade virou sonho. O pássaro que vi lá no alto não era um urubu pintado de tinta, era mesmo minha Águia branca. Ela veio me buscar e estou pronta pra partir. Tentei avisar, a senhora dormia tão profundamente, chegava a roncar, e não quis incomodar. Por favor, não se preocupe estou bem e muito feliz! Só lhe peço que não faça do sofá sua morada, a casa é grande e deixei tudo limpinho, só precisa conservar. Lá fora, tem um jardim lindo, que com carinho cultivei, acorde bem cedinho sente no baquinho que lá deixei, vai ver como é lindo o sol pela manhã, brilhando quentinho, as flores coloridas e o canto dos passarinhos. À tardinha, vá à padaria, compre pão quentinho coma com margarina e café, vai descobrir que delicia que é! Procure dormir cedo e acordará sempre disposta, essa dor que sente nas costas é a madorna e o mau jeito no sofá! Sorria, cante bastante, leia bons livros é um ótimo professor! Arranje um bichinho que lhe faça companhia, trate-o com carinho e terás um bom amigo para o resto da vida. Agradeço por tudo o que me ensinou, mesmo sem tempo pra comigo conversar deixou-me a vassoura, o balde, a bagunça pra arrumar, a louça pra lavar, a cozinha, o fogão, o tanque e o sabão, por incrível que parece foram estes meus nobres conselheiros! Com a cabeça sempre ocupada na louça, vidraça, no almoço e a faxina, me conhecia um pouco mais a cada dia, aprendi a sonhar e desse sonho fui traçando o meu caminho. Não me ocupava com tristezas, tinha certeza de que aqui não era o meu lugar, não sou borralheira, sou princesa! Quem tem sonhos e asas precisa voar! Vou seguir o meu destino, sei bem o que me espera! Pra onde vou é Primavera!
Um beijo com carinho, da sua afilhada Joaninha”.
- Arrepare, menina mais ingrata meu Deus! – disse a madrinha admirada – O que faço agora? Meu vestido ta todo amarrotado! E meu caldo? To cum fome, preciso me alimenta, to tão fraquinha! Acho que vou desmaia! Isso não se faz com uma pobre madrinha adoentada! To ficando toda arrepiada, é a pressão que ta baixando. Vo morre do coração!!! É muita ingratidão! Flô, minha filha, num fique aí parada olhando pra minha cara! Vá, vá lá pegar um copo d’água, vá! To com a garganta que chega queimar! Vá minha filha, vá trabalha vá! Me ajude que hoje num to boa!
Flor, que até então ouvia as lamurias da amiga calada, resolveu falar o que pensava:
- Olhe mulhé você não entendeu nada do que Joaninha escreveu na carta. E sabe de uma coisa? Enquanto Joaninha sonhava você dormia, mas já ta mais que na hora de acordar!
Asas da Imaginação
Pedro sempre foi introvertido. Na infância era de poucos amigos. O único amigo que tinha de verdade era Reginaldo, a ele Pedro confidenciava segredos, temores, amores. Reginaldo era quase um irmão com quem podia contar, brincavam o dia todo sem nunca brigar. Essa amizade durou o tempo que tinha que durar, à medida que cresciam, Pedro sentia Reginaldo se afastar. Coisa natural, afinal, a infância dava lugar a questões práticas como: Futuro, profissão, trabalho, ganha-pão. Brincadeiras, diversão era coisa do passado assim como Reginaldo.
Pedro formou-se advogado bem sucedido, bajulado, estava sempre ocupado. Muitos o qualificavam de arrogante, antipático e mal amado. Porém, quase ninguém, sabia que na verdade Pedro não era assim. Na infância sonhava ser poeta, astronauta e encontrar um grande amor. Nada mudou no mundo interior de Pedro, ele só cresceu e adultos costumam acreditar que nessa fase da vida, não há tempo para sonhar, imaginar, poetizar a vida. Era bem mais fácil esconder esse lado encantador que só revelou para um amigo do passado. Um dia Pedro conheceu Clara, que era exatamente tudo aquilo que ele nunca sonhara. Clara era alegre, falante, extrovertida, admirada. Era pediatra e quando alguém perguntava porquê escolheu essa profissão, ela respondia que se enxergava em cada criança, dessa forma estaria segura da insegurança que os adultos têm em admitir que tem muito a aprender.
A medida em que Pedro aproxima-se de Clara, deixava que lembranças da infância trouxesse de volta o seu verdadeiro “eu”. Até de Reginaldo ele lembrou! Contou à Clara sobre o amigo e suas peripécias, riram juntos e neste momento Clara confidenciou que também teve uma amiga, quase irmã, e dela jamais se separou, porque, Keila era perfeita, talvez por fazer parte de sua imaginação. Pedro deu um salto mal conseguia acreditar no que acabara de escutar! Então revelou o seu segredo: Reginaldo era seu amigo imaginário.
Anos depois, Clara e Pedro se casaram.
E em algum lugar onde o sol possa alcançar Reginaldo e Keila seguem a vida, fazendo parte das vidas de outros Pedros e Claras tornando-as mais coloridas.


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