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Contos 
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Vivo está todo aquele que ainda sorri
A chegada da primavera trazia flores e calor. Nem a beleza da estação era capaz de tirá-la de seu mundo de dor e silêncio. Esquecera da última vez que ouvira a própria voz. Os filhos pequenos rogavam por um pouco de sua atenção. Os maiores desistiram de tentar.
Sua mente tornara-se um turbilhão de questionamentos silenciosos. Pedia uma resposta capaz de convencê-la a continuar. Quando fechava os olhos, caindo em sono profundo, via aquela figura correndo feliz em sua direção, jogando-se em seus braços. Juntos rodavam de mãos dadas, brincavam de pega-pega, construíam castelos na areia. Ali não cabia tristeza, saudades. Tudo era perfeita felicidade. Permaneceria assim para sempre, porém, o clarear do dia, o canto dos pássaros, a fala das crianças, devolvia-lhe à realidade.
Numa noite, de chuva forte, ouviu daquela voz serena um apelo à vida: “Mãe, vivo está todo aquele que ainda sorri”. Aquele sorriso largo e a frase continuaram em sua mente.
Após meses de pura inércia, conseguiu sair da cama. Na gasta bolsa de tecido barato, encontrou alguns trocados; era a conta certa para a passagem de ônibus até a praia. Na viagem, rogava forças ao alto. Precisava exorcizar a angústia que a sufocava sem piedade. Os filhos careciam de sua presença viva, saudável; entregar-se não mudaria o rumo das coisas. A retomada à vida era urgente.
Pisou na areia alva e fofa como se pisasse em brasas. Aproximou-se da água.
O vento balançava, levemente, sua saia. Dos olhos, fixos na linha do horizonte, brotavam lágrimas que lavavam sua face cansada. As ondas beijavam-lhe os pés, como se pedissem perdão por ter roubado seu maior tesouro. O mar levou Moisés pra sempre, e pra sempre ele sorri.
Danny sem Noção
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Ficha Técnica
Danny: 13 anos
Perfil: Super legal, super amiga, super feliz, super. . . Qualquer outra
coisa
Amigas da Danny: Fe, Le, Re, Pri, Dri, Gi, Taty e Paty.
Passatempo preferido da Danny: Testes de revistas para adolescentes. |
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Parte 2 |
A Danny anda um tanto preocupada. Pensativa. Passava horas trancada no quarto. Com as pernas, cruzadas, em cima da cama e um caderninho das “Garotas super fashion” apoiado numa almofada, Danny batia, levemente, no queixo a caneta rosa das “Garotas super do bem” (daquelas que tem na ponta umas pluminhas rosa-choque suuuper linda). A menina estava mesmo concentrada. Mascando chiclé, espremia os olhinhos. Vez ou outra inclinava a cabeça, cheia de frufrus, olhando para o teto, batendo a super canetinha no canto da testa. Danny pensava, pensava muito.
Logo o silêncio do quarto fora invadido por um turbilhão de risinhos frenéticos da Gi, da Pri, da Mi, da Ci, da Li e da Dri, as super amigas da Danny.
- Oi migaaaaaa!! – gritou Dri jogando-se sobre a amiga.
As outras espalharam-se pelo quarto. A Gi se olhando fazendo caras e bocas no espelho, a Ci e a Mi aconchegaram-se no chão pra ler a nova edição da revista “Garotas super divertidas que sabem o que querem”. Enquanto que a Li e a Pri procuravam o mais novo CD das “Garotas super legais, super lindas, super dançantes”. Toda essa agitação em meio a gritinhos e muito risos.
- Que ta fazendo Danny? – Dri puxou o caderninho da amiga.
- Cara, to suuuper bolada!! – confessou.
Todas olharam curiosas e de queixo caído.
- Por quê?! – perguntaram quase ao mesmo tempo.
- Mêu, me inscrevi num concurso de poesias!
Uhuuuuuuuu!!! O frenesi foi geral. Batiam as mãozinhas uma das outras com gritinhos de guerra.
Revezaram nas opiniões:
- Cara isso é demais!!
- Irado!!
- Muuuito 10!!
- Suuuper legal!!
- Uhuuuu!!!
- Dgenth, cês não tão entendendoooo!!
- Qual o problema?! – Pri perguntou, em seguida soltou um gritinho por ter encontrado o CD.
- O prazo é até amanhã cedinho e eu preciso de um pseudônimoooooo!!!
- Ã?! Que isso?! – Gi tava suuuper confusa.
- Meu nome artístico, dããããããã!
- Aí que suuuuuuper!!!
Euforia geral.
- Entããão vamô pensar num pseu... Num nome artístico, oras! – Dri tava suuuper animada.
- É o que tô tentando fazer há dois dias!
- A dgenth ti ajuda miga! – Garotas suuuper solidárias.
Passaram horas sugerindo nomes que fossem suuuper legais, suuuper descolado, suuuper diferente, suuuper qualquer outra coisa. Anotavam todos, cada qual com suas suuuper canetas de pluminhas coloridas.
Muito tempo depois, finalmente escolheram um que a Danny suuuper adorou:
Jhenniffer Louis Sprinnghers.
Nada de economizar nos “N”, “H”, “F”. Nome artístico tem que ser caprichado. Segundo elas, claro.
Decidiram até mesmo como seria a assinatura do tal nome. Como não?! E os autógrafos na noite de lançamento?! Uma suuuper assinatura era coisa de suma importância! No conceito delas, é claro.
Fim de tarde, as garotas suuuper amigas estavam suuuper exaustas. Escolher um nome artístico é tarefa que requer suuuper esforço intelectual, tarefa nada fácil. Danny, por sua vez, estava suuuuuper satisfeita.
Noite chegando. Missão cumprida.
Na despedida as amigas lembraram de perguntar da poesia.
- Ahhhh Dghenth, ainda não pensei nisso! To suuuper cansada!
- Você sabe fazer poesia?! - questionaram um tanto duvidosas.
- Claro né, dããããããã! Quem não sabe?!
Aliviadas trocaram o ar preocupado por mais uma rodada de risinhos soltos e gritinhos de UHUUUUUU!!!
Passada uma semana, as “migas” reuniram-se na casa da Danny, era a data do resultado. Acessaram o site do concurso, trocando olhares de expectativa, sufocando risinhos de ansiedade. Seis carinhas coladas ao computador que não escondiam a decepção ao ler o resultado.
- Ã?! – Danny suuuuper confusa - A ganhadora foi essa tal de Ana Silva?! – Danny suuuper inconformada.
- Dghenth, que pseu... Que nome artístico horrrrrrrivél!!! – Dri também.
Desalento total.
- Dghenth, ta provado que esse pessoal de Concurso de poesia não tem a menor criatividade!! – Danny dando suuuuper volta por cima.
Gargalhadas, gritinhos, Uhuuuuus. O clima “suuuper legal” voltou ao normal. |
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Parte 1 |
Certo dia o avô da Danny, um senhor de 86 anos, foi
buscá-la na escola. Combinaram de encontrar os pais dela na cidade
vizinha. Viagem longa, uma hora de ônibus. Sem as amigas, se sentiu
um tanto deprimida. Nada pra fazer. Tédio total! Sacou da mochila
uma dessas revistas para adolescentes. Leu, re-leu.
- Que saco! – bufou.
Mais uma folheada e encontrou um super-teste “Você sabe levar
um fora e sair numa boa?”. Sem nenhuma amiga por perto resolveu fazer
o teste com o vovô, que estava lá, na sua, olhando a paisagem,
alheio a tudo.
- Vô olha só, vou fazer um teste com você. Ókééi?
- Hrum – resmungou sem entender nada, continuava alheio olhando a
paisagem.
- Ó presta atensaum! Você tem que responder as alternativas
a, b ou c.
- C.
- Que c? Alôôôôuuu!! Ainda naum comece-ei! Vai,
vou começar, si liga: “Você sai pra balada e encontra
aquela gatinha e ela não te dá a menor bola. O que você
faz? a) Vai embora com os amigos pra outra balada; b) Nem liga e fica com
outra gatinha; c) Vai para um canto chorar no ombro de um amigo.”
- C.
- Ah, fálá sério! Dããããã!
Continuando: “Você descobre, através de um amigo, que
o seu melhor amigo ficou com a garota que você ficava. O que você
faz? a) Nem liga, você já partiu pra outra; b) Fica chateado
mas, não perde a amizade; c) Procura os dois pra tirar satisfação,
dá na cara da garota e sai na porrada com o amigo.”
- C.
- Crééédo, o mêue violência não
leva a nada! Sacou? Outra pergunta: “Você convida uma gatinha
pra balada, ela recusa e diz que no sábado à noite vai levar
o irmãozinho ao cinema”. O que você faz? a) Convida outra
menina; b) Fica furioso e decide nunca mais convida-la; c) Compreende e
acha lindo.”
- C.
- Que C o quê! Dãããããã!
Ô si liga! Ninguém troca uma balada de sábado à
noite pra levar irmãozinho pro cinema! Hum, cada uma! Vai, continuando:
“Você vai dançar num baile de debutante, daí convida
a garota que você esta super afim e ouve um sonoro ‘Ããããhhh!
Ta louco!? Viajou você, heim!’. O que você faz? a) Chora
a noite inteira; b) Dá risada na cara dela e diz ‘tava zoando
contigo bruxa!’; c) Convida outra garota, afinal, a fila anda.”
- C.
- Aêêêêê! Súúúper! É
isso ai, gostei! Ó si liga: “Depois de um longo namoro de uma
semana, a garota vira pra você e diz: ‘Méu, tipo assim,
acho que a dgentchi naum tem nada a vê’. O que você faz?
a) Tudo bem, estava mesmo com saudades dos amigos e das baladinhas; b) Arma
o maior barraco; c) Implora para que ela não te deixe, pois, não
vive sem ela”.
- C.
- Sério!? Bom, agora, vamos ver quantos pontos você fez. Caraca!
Só dez pontos! Ó presta atensaum, vou ler o seu perfil: “Você
precisa aumentar sua auto-estima. Levar um fora é super normal. Curte
a vida, as baladas, afinal, você ainda tem muito para aproveitar.
Isso é só o começo”. Nóóóssaaaa!
Súúúúper legal! Eu adoro esses testes dão
súúúúper certo!! |
Érik
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Ficha Técnica
13 anos.
Perfil: Sem noção-mor.
Amigas(os): Danny(sem noção) e o dedo indicador.
Sonho (impossível): “Ficar” com a Dri. |
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Parte 4 |
Danny voltava da escola para casa visivelmente suuuuuper chateada, levando sua super bicicleta rosa purpurina. Eric, correu até alcançá-la.
- Por que você saiu da escola com tanta pressa Danny? – perguntou ofegante.
Vendo que a amiga não estava para conversas, perguntou mais uma vez. Danny nem aí pra ele.
- Ô Danny, fala comigo mêue! Você ta doente? Ta com dor de barriga?
- Aí que dor de barriga Eric!!
- Então que cara é essa? O que aconteceu?
- O Lucas terminou comigo!
- Caracaaaaaaaaa!! Sério?! Vocês ficaram um tempão juntos, né?
- É... Acho que... – Danny fazia as contas – Uns quatro... Não, uns cinco dias mais ou menos.
- Cara!! – Eric deu uma pausa – E por quê ele terminou?
- Ah sei lá! Disse que era uma coisa de pele, sei lá! – Danny parou e perguntou ao amigo – Ô Eric, você que é menino, o que você acha que ele quis dizer com isso, heim?
- Ele disse que era coisa de pele?
- É.
Eric pensou, pensou, pensou e pensou mais um pouquinho.
- Ô Danny, isso é racismo cara!!
- Ãh? Ta louco você?! Aí... Ghenti... Eric... Naum sei como ainda te dou atenção cara!! – Danny, suuuper chateada, subiu na super bike e saiu sem destino.
- Que foi? Aonde você vai? Ô... Ô Danny me espera aí ô!! |
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Parte 3 |
Eric voltava da escola pra casa chutando pedrinha. Distraído, pensava no play station 4; se o sorvete de papaya com cassis é mais gostoso que o de truffas; no lançamento do Homem Aranha 5 e... Ah, “ficar” com a Dri, Eric ainda sonhava em “ficar” com a Dri. Absorvido em seus pensamentos, não notou que, do outro lado da rua, duas ciganas apontavam pra ele. Uma delas correu até alcança-lo.
- Menino deixa a Cigana Odhara lê sua mão.
- Ãããã? Cigana Odhara? Cadê ela?
- Na sua frente!
- Ahhhh! É você? Ta bom, pode ler.
- Hum vejo aqui que você gosta de uma garota muito bonita...
- Ca-ra-ca!!! Você viu isso aí na minha mão?!
- É, e você não consegue ficar com ela. Olha aqui, isso ta escrito nessa linha aqui. Ta vendo?
- Sério?! Mêu que loco!! Que mais que diz minha mão?!
- Ah... Pra Cigana terminar de ler tem que ajudar a Cigana...
- Ajudar em quê?!
- Em papel que vale ouro.
- Vixiiiiiiiiiiiii!! Num tenho isso não mêu!
- Então Cigana não pode ajudar menino a ficar com a menina Dri!!
- Mêu!!! Você sabe o nome dela?! Ca-ra-ca!!! Num to crendo mêu!
- Sua mão revelou tudo pra Cigana!
- Sério?! Si-nis-tro!! Me fala se vou ficar com a Dri então!
- Mas menino tem que ajudar a Cigana!
- Eu não tenho esse papel aí que vale ouro! Ah!! Tenho dinheiro aqui, serve?
- Hum... Fazer o quê? Serve né. Cigana vai quebrar teu galho.
- Me diz se ta escrito aí que vou ficar com a Dri.
- Olhe, ta escrito aqui que você vai ficar com ela sim!
- Uhuuu! Sabia!! Ca-ra-ca!! A senhora sabe tudo de mão mêu! Bagulho muuito loco!!
- Hum... Mas ta escrito aqui... Ó ta vendo essa linha aqui?
- To vendo!
- Essa linha aqui... Essa linhazinha aqui diz que alguma coisa impede você e a Dri de ficarem juntos e felizes para sempre!! Mas pra tirar esse empecilho tenho que mudar as linhas da sua mão.
- Ca-ra-ca!! To en-ten-den-do!! Tipo, se mudar as linhas da minha mão, daí eu consigo Ficar com a Dri?!
- Exatamente!!
- Ahhhhh!! Show mêue!!
- Pra mudar as linhas da sua mão, você vai ter que ajudar a Cigana.
- Lógico mêu!! Quanto que é?!
- Uns R$ 20,00 já dá!
- Putz, Não tenho trocado! Só tenho essa nota de R$ 50,00.
- Eu troco pra você ali com minha amiga!
- Falou!! Corre lá!!! Uhuuuu!! Si-nis-tro to-tal!!!
A “Cigana” correu muito, tanto que Eric a perdeu de vista.
- Não acredito que você conseguiu outra vez!!
- É esse garoto me dá “sorte”, desde a semana passada!! |
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Parte 2 |
Dia desses Eric estava teclando no e-blábláblá
e levou um susto quando viu que a Dri tentava puxar papo.
- Eaê Dri, belê, (risos)
- Belêêêêêêê, e com vc? (risos)
- Ta fazendo o quê? (risos)
- Falando com vc ué! Dããããããã
(risos)
- Ah, essa noite sonhei com vc, mó doidera (risos)
- Sonhou o quê? (risos)
- Num posso falar! (risos)
- Porqueeeeeeeeeeeeeee heimmmmmmmm (risos)
- Melhor não falar (risos)
- Ah Ériiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiic, fala vaiiiii! (risos)
- Vc vai ficar brava? (risos)
- Claro q Naum, pode fala-ar! (risos)
- Eu sonhei tipo assim , mêu, mó doidera cara, muito loooocoooo
(risos)
- Fala logo Éric!! (risos)
- Sonhei que a gente tava tipo, sei lá, namorando (risos)
- Ahhhh!! Seu sonho pode virar realiiiii-daaaa-deeeeeeee (risos)
- ?!!
- Ériiiiiiiiic cadê você-e? (risos)
- ...
- Ériiiiiiiiiic, cadê vocêêêêê?
(risos)
- O moleque!! Já não falei pra você parar de mexer no
meu computador?! Sai do meu quarto AGORA!!
- Ah Dri, tava mó legal a brincadeira!!
- Já falei pra sair! O Mãieeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, o Cadu
ta mexendo di novo no meu computadoooooooooor!!
- Ta bom, ta bom estressada, eu to saindo!!
- Deixa ver com quem você tava teclando... Hããããããã,
Éric?! Ô ta doido você?? Mêu, vou desligar esse
computador antes que ele venha bater papo comigo!! |
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Parte 1 |
No último sábado Eric ligou para Danny.
- Iaê Danny, legal? Meu, tu num vai acredita, mas a Dri ta, tipo assim,
ta . . . Apaixonada cara!
- Dgentchi! Sério?! Por quê?!
- Ontem ela me viu na cantina e disse: “Me paga um lanche?”
respondi: “To sem grana” daí ela disse: “Então,
me dá o seu!” respondi: “Sério? Acabei de comprar”
daí ela disse: “Melhor, pelo menos não ta babado”
respondi: “Fala sério Dri! Por que logo o meu?” daí
ela disse: “Porque você é o único garoto encefálico
que conheço que pode me pagar um lanche!” Meu ai caiu à
ficha, entendi tudo cara! Ela disse “que eu sou o único!”.
Diz ai, ela não se entregou?
- Ô Eric, fala sério! Você num ta assistindo aula de
biologia? Meu, si liga!!
Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
- Odeio quando a Danny desliga na minha cara! E Ainda muda de assunto! Ah,
fala sério! |
Malu
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Ficha Técnica
Malu, 05 anos
Irmã da Danny (sem noção)
Amigas (os): Guilberth, Bia e Bulú (o palhacinho encardido).
Hobby: Escalar estantes e armários.
Sonho do momento: Ser um Iglu (!?). |
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Parte 3 |
Malu estava muito concentrada. Tentava embrulhar, sem muito jeito, um livro em papel de presente. O pai, vendo o esforço da pequena, foi ajudá-la.
- Isso é um presente Malu?
- É, é um presente.
- E o que é?
- Um livro com as estórias de todas as princesas.
- Esse livro é seu?
- É. Já li muitas vezes e não preciso mais dele. Já aprendi tudo.
- Pra quem é o presente?
- Pro Guilberth.
- Guilberth? Como assim? Você não pode dar um presente desses para o Guilberth Malu!
- Por que não?
- Porque ele é um menino!
- E daí?
- Meninos não gostam de estórias de princesas Malu!
- Quem falou isso?
- Todo mundo sabe disso! Meninos gostam de bola!
- E por que eles não podem gostar de estórias de princesas?
- Bom... Eu não sei Malu, só acho melhor você dar uma bola pro Guilbert ao invés de dar esse livro.
- Ah não, eu quero dar esse livro – Malu tem personalidade.
- E se ele não gostar?
- Ele vai gostar sim!
- Como você sabe?
- Porque no meu aniversário ele me deu uma bola e eu gostei e todo mundo diz que bola é pra menino, mas eu sou menina e gostei da bola! E brinco com minhas amigas. Então por que o Guilberth não vai gostar desse livro de princesas?
O pai se viu em uma arapuca. Nem mesmo ele sabia explicar o porquê meninos não gostam de estórias de princesas, lembrou que na infância gostava de ouvir a mãe contando essas estorinhas para a irmã caçula. Não lembrava quem dissera que meninos não gostavam de ouvir essas histórias, mas sabia que entre meninos nenhum admitia que se divertiam ouvindo-as, aquilo era coisa de menina.
- Deixa eu ajudar a embrulhar! |
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Parte 2 |
-Vem Malu, vamos ao supermercado!
-Que horas são?
-São 17 horas e 45 minutos!
-Não pai!! A gente não pode sair não!
-Por que não?! Você adora ir ao supermercado Malu! Qual a nova?!
-Pai, o Guilberth falou que hoje quando começar anoitecer a gente vai conseguir ver tooodooos os planetas.
-Que exagero!! Uns dois tudo bem.
-Então é verdade?
-É Malu, às vezes isso acontece. Mas e daí?!
-Daí que a gente não vai poder sair! O Guilberth disse que o céu vai abrir e a gente vai ver os E.Ts na casa deles, assistindo televisão, jogando vídeo-game, fazendo lição de casa, arrumando a casa e muitas outras coisas que os E.Ts fazem! E eles vão ver que a gente ta vendo eles, daí vão vir pegar a gente porque eles não gostam que a gente veja eles fora das naves.
-Minha filha! O Guilberth tem uma imaginação invejável.
-É pai, o Guilberth sabe das coisas, ele tirou 10 no quadrinho de colagens!
-Claro, a mãe dele é dona da escolinha – resmungou o pai descrente do talento do garoto – Malu, pode ficar tranqüila que o céu não vai abrir hoje à noite. Primeiro, deixa explicar passo a passo: o que você vê lá em cima, e que chamamos de céu, é a camada de ozônio.
-??
-Calma, eu vou explicar: camada de ozônio é um gás que fica em volta da terra para proteger os animais, plantas e seres humanos dos raios ultravioletas emitidos pelo Sol. Sem a camada de ozônio os raios ultravioletas poderiam acabar com todas as formas de vida no planeta – É, o pai da Malu tem uma didática infantil invejável. A cara que a Malu fez era a prova disso.
-???
-Malu, imagina que a terra é uma laranja. Faz de conta que a casca da laranja é a camada de ozônio e a laranja é a terra. A casca proteje a laranja.
-Hum – Malu começava a entender – O que isso tem a ver com os E.Ts de hoje à noite pai?
-Então, essa camada é bem fina, por isso podemos ver as estrelas e os planetas à noite – O pai sabia dar as respostas mais simples para alguém com muito mais que cinco anos, é claro. O que definitivamente não era o caso da Malu.
-E por que não conseguimos ver de dia? – a pergunta soou desafiadora.
-Porque a luz do sol é tão forte que apaga o brilho das estrelas e dos planetas, que só ficam com um pouquinho, um reflexo do brilho do sol, mas é insuficiente para serem vistos durante o dia, a não ser com uso de equipamentos potentes... – o pai pensou um pouco, como é difícil ser claro sem complicar – Bom, vamos ao que interessa pra você no momento! E em algumas épocas é possível ver alguns planetas, à noite, com mais nitidez através de binóculos, telescópios. Com telescópios é melhor – O pai da Malu é um gênio – Pra finalizar, não se preocupe! Dou minha palavra que hoje o céu não vai abrir e você não vai ver nenhum E.T na casa dele jogando vide-game.
-Hum... – a menina parecia decepcionada – Então eles não vão ver a gente?
-Não Malu! Não mesmo! E aí, vamos ao supermercado?!
Malu pensava... E pela carinha que fez, parecia ser algo de supra-sumo.
-Pai você compra um telescópio pra mim?
-E pra que você quer um telescópio Malu?!
Com sorrisinho maroto respondeu:
-Ah, já que eles não vão me ver, eu quero ver eles jogando vídeo-game!! |
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Parte 1 |
- E você sabe o que é um Iglu Malu? –
perguntou o pai desesperado tirando a pequenina de dentro da geladeira.
- Sei! O Guilberth disse que Iglu são pessoas que moram dentro da
geladeira!
O (pobre) pai, já mais calmo, explicou (como pôde) que Iglu
não são pessoas, são “casas” onde moram
os Esquimós.
- O que é Esquimó?!
- São povos que vivem na região Ártica. – essa
era uma resposta simples para um pai - Como posso explicar – coçou
a cabeça, pensou, lembrou das contas pra pagar, a janela pra consertar,
o carro na oficina, o aumento da gasolina, e todas essas coisas que os pais
pensam. Até que voltou para a pergunta da Malu – Eles vivem
em um lugar onde só tem gelo, tudo é gelado, até a
casa deles, os “iglus”, são feitas de gelo, mas por dentro
não são geladas, por isso eles conseguem viver lá dentro
entendeu?
- Hum – Malu pensava, pensava - Entendi! Lá é a casa
do sorvete! Que nem o Pólo Norte é a casa do Papai Noel!! |
Menina-Joaninha
Joaninha foi criada pela madrinha. Menina-Joaninha é quem fazia tudo na casa da madrinha, lavava, secava, passava, cozinhava, varria, limpava, arrumava a bagunça deixada pela madrinha, e ainda sonhava... E como sonhava essa menina! E Joaninha acreditava em seus sonhos. E dizem que aquele que tem fé naquilo que quer, tem o poder de transformar sonho em realidade! E isso é verdade...
Quando reparava Joaninha parada, encostada no batente da porta olhando pro nada, madrinha advertia com voz preguiçosa:
- Joaninha pare de sonha! Vá minha filha, vá trabalha vá! Me de cá um copo d’água... Aí, to tão cansada.
Joaninha acostumou-se com a “moleza” da madrinha, a bichinha, desde pequinininha, ouvia as lamuria da mulher.
- Uma Águia branca um dia virá me buscar! – esse era o sonho de Joaninha.
- Joaninha, minha filha deixe de sonha! Águia branca não existe desse lado de cá! – resmungava a sonolenta madrinha deitada no sofá.
- Existe sim madrinha! E pode se preparar, um dia ela vem me buscar! – afirmava Joaninha com absoluta convicção de que tal sonho não era ilusão.
- Arrepare, eita menina que sonha meu Deus! Vá, vá minha filha, vá prepara meu chá, to muito indisposta hoje! Vá trabalha vá!
- Hoje e todo dia! – dizia Joaninha enquanto passava pano no chão.
- Vixe, menina que resmunga meu Deus! Resmungue não minha filha, isso faz é mal! Cuide bem de sua madrinha que já estou no fim de meus dias.
Anoitinha, Joaninha abria a janela de seu pequeno quarto, olhava pra lua e pedia:
- Traz minha Águia branca dona lua, por favor!
Depois da oração, Joaninha adormecia sozinha na casa.
A madrinha? Toda noite acontecia um milagre na vida da madrinha. Quando o sol dava lugar à lua, a mulher rezava pedindo em alto e bom som para que sua santa de devoção a curasse daquele mal. E o milagre acontecia. Madrinha pulava do sofá, escolhia um belo vestido e dizia que tinha que agradecer pela graça recebida.
- Vai à igreja madrinha? – perguntava Joaninha ainda que soubesse da resposta.
- Vo não Joaninha, igreja já ta fechada. Mas preciso agradece pela graça alcançada, por isso vo lá pro baile de salão, conta pros meus amigos o que aconteceu comigo depois que fiz o pedido!
- Será que a santa se agrada desse modo de agradecer por uma graça alcançada?
- Arrepare menina, deixe de graça! E Santa gosta de tristeza? Gosta nada, gosta de alegria! Ela gosta de ver seus devotos alegres, dançando festejando o milagre! Por que ta me olhando com essa cara? Viiiixe menina sem alegria meu Deus! Vá dormir vá minha filha! Vá que amanhã vamo acordar é com as galinhas!
Era assim todos os dias, à noite a madrinha caia na folia da dança de salão. Joaninha dormia cedo, e quando o sol nascia já tinha louça na pia e muito trabalho na casa. A madrinha passava o dia deitada no sofá dormindo até roncar. Quando acordava, se espreguiçava feito gato, pedia seu almoço, seu chá pra relaxar, pedia tudo sem levantar do sofá. Essa era a rotina da pobre Joaninha que nada tinha além do poder de sonhar. E como sonhava essa menina...
Certo dia, Joaninha limpava a varanda quando viu, ao longe, um pássaro grande voar. Animada Joaninha gritou:
- Madrinha, madrinha! Minha Águia branca chegou!
A madrinha sonolenta, deitada no sofá, abriu devagar um dos olhos deixando o outro descansar:
- Eita menina mais doida, meu Deus! Joaninha, arrepare menina, num vê que aquilo é um urubu pintado de tinta branca? Vá minha filha, vá trabalha, deixa de sonha! Traga cá meu café que o programa da Chica Banana vai começa!
Madrinha cochilou. Quando acordou, assustou-se com a hora.
– Vixe, que são quase sete da noite! – mais que depressa rogou a sua Santa de devoção, um tantinho de saúde pra cuidar de sua afilhada que nesse mundo não tinha nada, além daquela pobre madrinha adoecida. E como milagre era algo que acontecia com freqüência na vida da madrinha, foi prontamente atendida! Muito disposta pôs-se a chamar pela afilhada:
- Joaninha, venha cá minha filha!! Passe pra mim aquele vestido rosa de cetim. To atrasada, preciso me aprumar pro baile de salão, minha única diversão nessa dura vida de viúva, madrinha de órfã e de mulé adoecida que sou – madrinha começava seu lamurioso discurso pós-milagre de todos os dias – Venha cá Joaninha, se apressa minina, você vai me atrasar! Eita minina sossegada meu Deus! Joaninha, atenda a madrinha, não faça mal criação, to tão fraquinha... Traga meu caldo de galinha, tenho que me alimenta pra pressão não baixar! - Madrinha ficou atordoada com o silêncio de Joaninha – Joana, ô Joaninha, minha filha pare de sonha, venha cá! Atenda a madrinha, acho que to no fim dos dias! Mas, já que melhorei um bucadinho tenho que comemora! Joaninhaaaa!! Eita, menina despreocupada meu Deus! – enquanto chamava por Juaninha, madrinha bocejava e coçava a cabeça descabelada.
Passado um tempinho, chegou Dona Flô, amiga da madrinha.
- Flô, mulé de Deus, Joaninha sumiu!
- Sumiu nada! – gritou da cozinha - Olha, aqui tem um bilhete de Joaninha!
- Ié Flô? E o que diz esse bilhete? – perguntou deitando-se no sofá.
- Venha cá vê, eu num sei lê!
Madrinha não sabia mais o caminho da cozinha, fazia tempo que não pisava lá.
- Arre égua mulé, vou até aí nada! To muito cansada, preciso me resguardar pra hora do baile de salão! To ficando aperreada com essa situação. Traga aqui mulé, me deixa vê esse bilhete.
“Querida Madrinha, hoje minha realidade virou sonho. O pássaro que vi lá no alto não era um urubu pintado de tinta, era mesmo minha Águia branca. Ela veio me buscar e estou pronta pra partir. Tentei avisar, a senhora dormia tão profundamente, chegava a roncar, e não quis incomodar. Por favor, não se preocupe estou bem e muito feliz! Só lhe peço que não faça do sofá sua morada, a casa é grande e deixei tudo limpinho, só precisa conservar. Lá fora, tem um jardim lindo, que com carinho cultivei, acorde bem cedinho sente no baquinho que lá deixei, vai ver como é lindo o sol pela manhã, brilhando quentinho, as flores coloridas e o canto dos passarinhos. À tardinha, vá à padaria, compre pão quentinho coma com margarina e café, vai descobrir que delicia que é! Procure dormir cedo e acordará sempre disposta, essa dor que sente nas costas é a madorna e o mau jeito no sofá! Sorria, cante bastante, leia bons livros é um ótimo professor! Arranje um bichinho que lhe faça companhia, trate-o com carinho e terás um bom amigo para o resto da vida. Agradeço por tudo o que me ensinou, mesmo sem tempo pra comigo conversar deixou-me a vassoura, o balde, a bagunça pra arrumar, a louça pra lavar, a cozinha, o fogão, o tanque e o sabão, por incrível que parece foram estes meus nobres conselheiros! Com a cabeça sempre ocupada na louça, vidraça, no almoço e a faxina, me conhecia um pouco mais a cada dia, aprendi a sonhar e desse sonho fui traçando o meu caminho. Não me ocupava com tristezas, tinha certeza de que aqui não era o meu lugar, não sou borralheira, sou princesa! Quem tem sonhos e asas precisa voar! Vou seguir o meu destino, sei bem o que me espera! Pra onde vou é Primavera!
Um beijo com carinho, da sua afilhada Joaninha”.
- Arrepare, menina mais ingrata meu Deus! – disse a madrinha admirada – O que faço agora? Meu vestido ta todo amarrotado! E meu caldo? To cum fome, preciso me alimenta, to tão fraquinha! Acho que vou desmaia! Isso não se faz com uma pobre madrinha adoentada! To ficando toda arrepiada, é a pressão que ta baixando. Vo morre do coração!!! É muita ingratidão! Flô, minha filha, num fique aí parada olhando pra minha cara! Vá, vá lá pegar um copo d’água, vá! To com a garganta que chega queimar! Vá minha filha, vá trabalha vá! Me ajude que hoje num to boa!
Flor, que até então ouvia as lamurias da amiga calada, resolveu falar o que pensava:
- Olhe mulhé você não entendeu nada do que Joaninha escreveu na carta. E sabe de uma coisa? Enquanto Joaninha sonhava você dormia, mas já ta mais que na hora de acordar!
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